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domingo, 17 de outubro de 2010

O ÚLTIMO CANTEIRO - (PIONTO) PAULO JORGE DA SILVA REIS

Quando os dentes nascem enraizados em pó de pedra, e cedo se trocam ponteiros de escola por outros ponteiros, em pedra batidos por rapaz solteiro, solfejados em “pionteana” pauta de música de marreta e maceta em público ou à parte, não há volta a dar... encontrou a arte.


O Paulo Jorge da Silva Reis, tem agora 44 anos, é casado e tem uma filha.
Herdou do pai, João dos Reis/João “Pionto” esta arte, esta queda, de endireitar ou entortar pedra.
Aos 14 anos foi para as pedras, assim me dizia, e, no Sanches e Barata e Marujo, aprendia.
Torneava balaústres, todos democraticamente iguais, hirtos, aprumados que nem fustes... nesta linha de montagem não havia criação, e, então ainda novo em idade, procurou a liberdade.
Tem o nono ano de escolaridade.


O Paulo faz parte da 3ª geração de canteiros de Alcains.
Numa primeira, dos ainda vivos, podemos nomear o seu pai, João Pionto e o Ti João Moleiro.
Numa segunda, aqueles cuja idade ronda agora os sessenta anos, refiro os nomes de memória de Carlos Banhudo, António Clemente Anes, Aníbal Escudeiro, Manuel Escudeiro, José “Estorino”, Adriano Esgueira, António “Estorino”, António Bernardo e José “Bilau”.


Contemporâneo destes novos tempos, de ditas novas oportunidades, e tendo formação escolar de base, fez Curso de Formação de Formadores na área das pedras, da cantaria.
Nunca se conseguiu fazer sequer uma turma para se darem umas aulas e fazer novos canteiros... desabafava, não serviu de nada...


Em 1986 vai para a Suiça.
O Paulo, tem por aí umas obras que o elevam a um estatuto de artista na arte de cantaria.
Foi ele que reconstruiu no Solar Ulisses Pardal, o pilar que ruiu após temporal, em talha em pedra, uma aplicação bem linda e perfeita que todos podemos observar.
Recentemente, para a Junta da Freguesia de Salgueiro do Campo, construiu por fotografia, a parte superior de um fontenário que dali fora roubado, e que as fotos reproduzem.

Pormenor do trabalho

Outro pormenor do fontenário


Em CD que me facultou, tem várias obras que atestam qualidade e sensibilidade de artista.
O Paulo, a quem no seu dizer lhe nasceram os dentes nas pedras, vai à pedreira, corta a pedra, aparelha-a, e dela faz o que o cliente quiser.
Mas, com tristeza refere... ninguém se dedica a isto.
Entidades, fundos europeus, autarquias, museu do Canteiro, ignoram completamente esta actividade que deu nome a esta terra... queijos e canteiros.


Na terra deles, onde chegaram a existir seis pedreiras em exploração, há apenas uma ou duas em exploração reduzida.
Estão aos poucos a fechar também as pedreiras... elevados custos de licenças ambientais, granito com muito desperdício, muitos veios, muitos lisos, textura não uniforme, aliado a um forte declínio da actividade da construção civil, hoje, não há uma única grua de pé em Alcains, fazem temer pelo fim de uma actividade a caminho de extrema-unção...
Sem por em causa o que aprendeu nas empresas onde trabalhou, refere com emoção que deve ao Pai, o rigor, a perfeição.
O Paulo, artista, pensa voltar à Suiça.

Manuel Peralta

Nota: Peço desculpa, por muitos outros nomes de canteiros, que não mencionei.

1 comentário:

  1. Uma profunda tristeza…

    Em geito de balanço, pode dizer-se que Alcains – Terra de Canteiros, é uma associação que já foi…
    Isto é, aquilo que foi o seu emblema, corre o risco de estar a caminho do apagamento!
    Mais uma ou duas gerações se tanto, apenas restarão, mudas no tempo, as obras que os nossos artistas fizeram. O património, que a sua arte deixou espalhado um pouco por todo o país!
    À semelhança do que aconteceu com outra actividade que desapareceu – a dos Chapeleiros – a dos Canteiros parece estar já a meio do plano inclinado.
    Por isso e já que as Novas Oportunidades, também não contribuíram para motivar a renovação, estamos claramente perante uma actividade em progressiva via de extinção! Lenta, mas de direcção e sentido inflexíveis.
    Por isso é importante, todo o espólio que se possa documentar, e que fique para os vindouros terem algo que os informe onde mergulham as suas raízes!
    Como eram e o que fizeram os seus antepassados!
    E este Blog, com os seus alertas, está cumprindo um papel social, que talvez a outros também competisse.
    E talvez não seja difícil esse desiderato. Às mesmas comissões que coordenam evocações com discursos, festas e medalhas, talvez não ficasse mal englobarem no seu programa de actividades, a documentação do património dos que os elegeram, dos seus pais e avós, como uma das suas preocupações prioritárias!
    Pois, falar é fácil!...Mas em 1980, com o milagre da modernidade ainda tão distante, as prioridades, notoriamente teriam que ser outras!..
    MC

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