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quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

O SENHOR RAUL

Raul Duarte Prata

Quem ainda não ouviu falar ou não conheceu o Senhor Raul?
Quando os homens, de chapéu na cabeça, em grupos de quatro a oito, faziam o dominical circuito das tabernas, sentado na varanda que a foto abaixo documenta, estava o Sr. Raul.

Varanda da casa do Sr. Raul

Rádio ligado, volume de som elevado, que permitia aos passantes ouvir o relato de futebol, e o terço, foi ali anos mais tarde que surgiu a primeira televisão em Alcains.
O Sr. Raul, nasceu em Alcains, no dia 22 de Dezembro de 1899,e faleceu em 8 de Setembro de 1972.
Filho de Fortunato Duarte Prata e de Claudina Bemposta, casou e teve um filho de nome, Fausto da Silva Prata.

Pai e filho

Homem dotado de vários talentos, comunicativo, foi barbeiro, enfermeiro diplomado,
odontologista.
Com carro próprio, deve-se a ele o surgimento do primeiro táxi de Alcains, exercendo então também a profissão de taxista.
Representante de várias firmas comerciais, viajante, negociou em mercearias, miudezas e
electrodomésticos, ao mesmo tempo que exercia com maestria, a função de caracterizador de personagens, dos muitos teatros que se realizavam na época, em Alcains.
Em Agosto de 1992, no precocemente falecido jornal denominado, ROTEIRO de ALCAINS, o seu director, JOSÉ SANCHES ROQUE, fez ao Sr. Raul, o merecido destaque de imprensa que mão amiga me fez chegar, e que abaixo reproduzo.

Jornal Roteiro de Alcains
Exemplar nº7
Agosto de 1992

Homem dos sete ofícios, autodidata em pirotecnia, foi no entanto na actividade ligada à saúde que o Sr. Raul, ganhou fama e mais se notabilizou.
Quando a Casa do Povo ficava situada na rua do Ribeirinho, rua que vai do Clube da Praça até à rua dos Mortórios, e o médico da Casa do Povo entrava de licença, era o Enfermeiro Raul que assegurava a saúde quer em Consulta Aberta, Urgência ou Emergência.
Por vezes nem tudo corria bem…e, para tal, convido quem me lê, a visitar no TERRA DOS CÃES, um texto que escrevi relativo ao Ti Guilhermino Cuco, seu ao tempo, paciente.

Maria José
Empregada do Sr. Raul

Conta-me entretanto a sua empregada Maria José, solteira, que irá fazer 94 anos em 17 de Janeiro de 2011, natural de Martim Branco, Almaceda , e que veio para Alcains com a mãe quando tinha 11 anos, que certo dia, um filho do Ti Manuel Preto apareceu com o pai no consultório com uma infecção no dente, pedindo ao Sr. Raul para o arrancar... hoje, com anestesia, diz-se, extrair.
Apesar de pedir por tudo, o Sr. Raul não arrancou o dente…vai com o filho para Castelo Branco e lá arrancam o dente ao rapaz…nunca mais teve face ou cara de gente, acabaria por falecer.

Maria José
Ao lado o rádio do Sr. Raul

Ou que fosse pelas muitas amêndoas de farinha, ou pelos rebuçados de um tostão três, que então se comiam, o que é certo é que à mais pequena dor, ia tudo ao Sr. Raul para arrancar dentes.
Pedagogo, dizia... ouve lá, se te doer braço ou perna, também os vais arrancar?
A Maria José, que nunca foi à escola, é a memória ainda viva, das vidas do Sr. Raul... a pedido da irmã dele, a Srª. Fortunata, tinha ela então 20 anos, foi para empregada do Sr. Raul a quem ajudou durante cerca de 30 anos…
Acompanhou a morte do seu filho, que a foto abaixo documenta.

Fausto da Silva Prata

Refere a pobreza das pessoas, pagavam em géneros quer tratamentos quer consultas, mas nunca deixou de atender quem quer que fosse, em face da sua condição social.
Muitas pessoas, vindo do médico de Castelo Branco, passavam depois pelo Sr. Raul, de receita na mão, solicitando segunda opinião.
No quarto dos curativos arrancava os dentes, a ferro frio, sem anestesia, como se dizia…
Raramente havia queixas, e não conheço que me lembre, de alguém que em termos da sua vida profissional, dele dissesse mal.
Em meu entender, Alcains deve lembrar pelas ruas este ilustre Alcainense... pelo que fez, pelas inovações que com o seu esforço antecipou, pela tranquilidade que incutia nas gentes doentes, pelo serviço que com humanidade prestou à nossa Comunidade.
Obrigado Sr. Raul.

Manuel Peralta

3 comentários:

  1. A Música que daquela varanda se espalhava pela Rua…

    Recordo-me do Sr Raul, daquela varanda escancarada, de onde nas noites quentes de Verão, sentados creio que num “batorel” que existia pegado à loja do Ti Nicolau, ouvíamos deliciados a Música, que escorria pela Varanda.
    Os meus dentes também passaram pelas mãos do Sr Raul, e recordo-me dos seus pedagógicos conselhos para a lavagem dos mesmos, e de qual a pasta dentífrica a utilizar na sua higiene.
    Do filho, cuja actividade na Marinha de Guerra o afastava de Alcains, tenho uma memória muito vaga.
    Quanto à habilidade do Sr Raul como caracterizador teatral, ainda na JOC, quando da estreia do “Matei o meu filho”, terá sido a ele que recorremos.
    Em resumo, creio que um bom homem, com uma cultura acima da média, e de quem os alcainenses talvez com mais de setenta anos, tenham memórias muito mais vivas e vividas.
    MC

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  2. Também me recordo perfeitamente do Sr. Raul não porque tenha recorrido a ele como dentista mas, como negociante e das brincadeiras de língua entre ele e o Ti Nicolau: ambos muito humoristas.
    Como quase todos os alcainenses foi na varanda do Sr. Raul que vi a televisão a primeira vez. Um ecrã que talvez não excedesse 30cm, mas que grande novidade para todos nós.
    Custou bastante a entrar na cabeça de algumas pessoas que aquilo não era cinema.
    Quanto ao facto de o Sr. Raul não querer arrancar o dente ao Joaquim Preto, como profissional sem diploma que era nesta arte “dentista”, ele teria a sua razão para não o fazer.
    Devia saber que o Joaquim era diabético, e certamente não queria ser responsável de algum eventual problema.

    MG

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  3. As crónicas que vão sendo publicadas neste blogue são autenticas lufadas de ar que me refrescam a memória de menino. Desta vez senti o impulso de olhar para cima recordando-me do beirado da casa do Sr. Raúl. A miudagem saía da escola e corria, batendo com os calcanhares no cu ao ganhar balanço barreira da pedreira abaixo, descendo desenfreadamente e tendo como destino final a casa do Sr. Raúl. Naquelas tardes de primavera, perdíamo-nos maravilhados tentando ingloriamente contar quantos ninhos as andorinhas amontoavam em redor do beirado. Agora mesmo, se fechar os olhos, vejo o esvoaçar das andorinhas naquela azáfama de zelosas arquitetas, construtoras de labirintícas cidades penduradas no beirado da casa do Sr. Raúl, e consigo mesmo ouvir a melodia dos bicos das cegonhas em cadenciadas melodias de acasalamento.
    Obrigado Manuel Peralta pelo refrescar de tão gratas memórias

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