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quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Poesia das Quartas Classes

Por um lado, exercitar a memória e desenvolver o sentido da declamação e, por outro, recitar em público e vencer os “medos de palco”, aprender poesias era, entre outras formas de aprender, um motivo de diferenciação escolar e de notoriedade local.
Os professores primários de então, estimulavam bastante esta forma de aprendizagem como forma de apreciar o aluno no seu à vontade e no interrelacionmento escolar.


Essas poesias, continham sempre uma ideia, uma moral, uma lição que temperava a educação de então.
Nas matações, matança do reco ou do porco, e outras festas familiares, por vezes nas longas noites de inverno ao “serão”, enquanto se comiam umas passas, figos secos, com um chá “depois”, em Alcains o chá de poejo nunca era tomado antes, era e é sempre chá “depois”, sem rádio, e a televisão ainda muito longe, cada um dizia o que sabia para entreter o calmo passar do tempo de então.


As anedotas dos Alentejanos, eram quase inexistentes, e, quer as da “Vidiguêra”, quer as da “Amarelêja”, ainda ausentes...
Recentemente, e depois de “arraçoado” almoço com os meus pais, já o bagaço novo comigo passeava impampe (soberbo, petulante, desdenhoso) por toalha córada, começa em voz toeira, a minha mãe a recitar uma poesia que aprendeu na escola primária.


No fim do “ano escolar” de então, quer dos meus pais quer do meu, no tempo dos meus filhos “lectivo” e agora dos meus netos “letivo”, era habitual que os alunos  mostrassem aos pais as “habilidades” de então ou as “abilidades” de agora...
No portão da escola, e perante a comunidade escolar de então diziam o que sabiam.


A poesia que se segue, foi recitada em 1935, tinha a minha mãe 10 anos, e relembrada agora, em 2012 com 87 anos.
Aí vai... 

PAPOILA de 1935


Uma papoila, 
dizia ao trigo.
Como sou linda,
 ó meu amigo.

***

Encarnadinha,
Bela e viçosa.
Sou mais bonita,
 Do que uma rosa.

***

E tu não tens pena,
ao veres-me assim?
 Teres nascido,
ao pé de mim?

E nisto passa, o lavrador...
 Vai-se à papoila, e corta a flor.

***

Filhos é bom,
Ter formosura.
 Nascer vaidoso,
Não trás ventura.

Afonso Lopes Vieira, autor.


Fiquei atagantado, não só com a qualidade da dicção, em voz toeira, isto é, com bom tom, mas também com os gestos e as inflexões a garrotes pedidas pelas estrofes.


Assarapantado, meio engasgado fiquei com a altivez do tom nas quadras arrogantes, com o brutal silabar do corte rural da papoila do não subsidiado lavrador, com o modo, envolvente, maternal do conselho com moral.
Claro que a luta, entre a 4ª classe de 1935 e a de 1959 não acabava aqui.


E, ripostei.

PAPOILA de 1959


Mesmo no cimo da serra,
 muito guapa muito tôla.
 Nasceu num monte de terra,
 senhora dona papoila.

***

Era alta, era espigada,
 de olho preto brilhante.
 Tinha uma touca encarnada,
 e um pé delgado ondulante.

***
 
Junto dela nada havia,
 que lhe empalmasse a frescura.
 Muita flor ali vivia,
 mas sem tanta formosura.

***

Por isso a dona papoila,
 era toila, toila, toila...


O meu pai, que muito cedo aprendeu a “Rumba Negra”, votou na esposa, a Céu, vá lá..., votou no marido, empate do público, garantido.
Sei que nesta disputa, mais dia menos dia vou ter que ir novamente à luta.
Conta a minha mãe que o Sr. Emídio Nascimento Beirão, comerciante ali na praça e já falecido, terá interpelado a minha avó, no comércio, porque razão não tinha ido à escola ver e ouvir a filha.


O que a minha avó disse não sei. Só sei que a minha mãe regista que o Senhor Emídio terá dito, “a tua filha, ralhou connosco que se fartou... ”
Esta apreciação popular do modo como se avaliavam os “diseurs” de poesia, mais tarde declamadores, tinha muito a ver com o modo como ralhavam...
Ainda hoje me assusto com o que ouvia ao saudoso e grande “Elias Pereira Djasus”, que de espuma ao canto da boca, ralhava no palco da casa do povo, “vivendo, com o mesmo sem vontade, com que havia rasgado o ventre de sua mãe... 


Ou até, o ainda com muito cabelo, Ezequiel Lopes e Rafael, que sem ralhar, toava em Portalgre cidade, do alentejo cercada, muito divido entre o “menino de sua mãe” e já sem medo, o “cântico negro”... 

Futuramente, mais apoemarei...

Manuel Peralta

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