Páginas

domingo, 13 de maio de 2012

Manuel dos Reis Grilo

Apenas por este nome, quem conhece este Alcainense?

Discreto, mas em amena cavaqueira na sua casa, lá me foi dizendo, “eu era muito esperto” pois fiz de uma “penada” e com 18 valores a 4ª classe, com o professor João Pedro Rodrigues.
Leva Manel que ainda vai quente, anotei, logo que me sentei!!!
Nasceu em 5 de janeiro de 1940, em Alcains, filho de João José Grilo e de Maria Celeste Grilo.
Teve três irmãos, a Liberata, o Silvestre e o José Valentim, todos Grilos, amigos da “sarradela” e da tenra folha de alface.


Conheci esta boa gente e sempre tive para mim que estes Grilos, não eram grilos de gaiola... eram grilos de campo, Silvestres, de Liberatas que libertavam atas sem fim, e de tão valentes, houve até um que foi Valentim...
Mais uma dica?
Casado com Ermelinda Clara Barata Grilo, tem o casal três filhos, Grilos, só rapaziada, seis netos, Grilos por certo.
De quem se trata?
Falo é claro do “ALTAMOTORA”, do “Manel Russo”, este homem que talhado para ser um “monente”, digo melhor, um moinante, conseguiu com o seu esforço travar uma frase, por sua mãe, muito batida... hoje é o último dia do resto da tua vida...
Não foi.

 

Acabada a 4ª classe, nunca chumbou, ou como agora se diz, nunca ficou retido, vai, criança ainda, para a Folha da Lardosa guardar uma vinha.
Nos vastos campos da Lardosa, atravessado pela linha férrea, ranchos de terceiras, terçavam feijão frade, que alimentava o patrão, da gleba o servo, e, claro, o abade...
Folha da Lardosa em que a palavra “Folha”, em termos agrícolas significa uma porção de terreno que recebia culturas alternadas, do tipo, uma vez feijão, outra vez milho.


Sem necessidade de ir ao respigo, barriga cheia de bagulho, lembra ao Manel o que não lembra ao diabo... colocar pedras sobre os carris da linha férrea.
Escondido em abrigo de parreira baldorã, e convencido da queda da automotora, atónito, observa o maquinista parar a locomotiva e retirar as pedras.
O maquinista comunica o ocorrido ao chefe de estação da Lardosa, e este, em averiguação imediata no local junto das terceiras, vem de lá com a “folha” feita ao Manel.

 
 O Chefe Grilo, com boné SP, Serviços Prisionais

“Fazer a folha”, planear/participar em ação com o intuito de prejudicar alguém.
A sua “Mãe Celeste”, andava por perto, pastoreando entre o “vazio” e o “ alavâ” e ao ver aquela “jursdiçã”, ajuntamento, na estação inteira-se do sucedido, e claro justiça divina, malhação, tareia de três em pipa, justiça de pobre, não rica...
Foi de tal ordem a ação da Mãe Celeste, que o chefe de estação da Lardosa, comovido com a cena, telefona para a estação de Vila Velha para informar o maquinista da pena Celestial do Manel, para retirar a participação.
Nada a fazer, tudo estava feito...
Tinha então 11 anos, e também naquele tempo, a justiça já era muito veloz com os fracos, de tal modo que, dois meses depois, acompanhado pelo pai que ia de colete, foi a tribunal, e a Mãe Celeste de avental...
Identificado e não surpreendido com os fatos, tinha por sentença, o internamento em colégio de recuperação que não era de vadios, diz hoje o Manel.

  
 O cabo Grilo, em pose de engate, com bivaque.

Por parte da CP, o advogado, tinha sido patrão do pai do Manel e ao aperceber-se da situação, engendra uma trama para, ludibriando o ministério público, tentar safar o filho do seu criado.
Combina com ele que, quando interrogado, dissesse que apenas tinha posto pedras num carril, que sim que estava bem, responderam 11 anos de Manel...
Mas frente ao juiz, e por este interrogado, “atagantado”, falou verdade e em nova questão, que não, bem ensaiado, que tinha posto pedras dos dois lados...
Acriançado, o juiz de preto, luto, mandou o Manel embora, como maluco...
Regressou ao Regato da Sola, onde jogava a bola... sempre que trabalho havia, e os rebanhos eram divididos entre o vazio e o alavão... trabalhava.
Vazio, ovelhas sem leite, alavão, ovelhas leiteiras.


O pai guardava o alavão e ele o vazio. Quando juntavam as ovelhas num só rebanho, o Manel ficava sem trabalho e regressava ao cabeço e ao regato da sola.
Assim andou, pelas pedreiras também passou, para ser pedreiro e quem sabe, canteiro, mas nunca passou de aguadeiro...
É ali na pedreira o seu batismo. Um dia o Ti Martinho Rosa na pedreira, volta-se para o aguadeiro Manel, e diz-lhe.
_Oh altamotora, tenho sede, trás água...  até hoje.
Aos 18 anos, oferece-se voluntário para a tropa, ainda moinante, sem cachopa... 

  
 Embarque para Angola, em 1965, no paquete Vera Cruz.

O Manuel Grilo tinha e tem o cabelo loiro e os olhos azuis, mas apesar de ser filho da Mãe Celeste, era pobre, mesmo muito pobre. E naqueles tempos, filho de pobre era russo, e filho de rico, era loiro...
Razão pela qual a sua riqueza era a dos apelidos, altamotora e russo.
A sua cotação namoradeira no Outeiro, naqueles tempos, 16 a 18 anos, estava ao nível do rating de Portugal...
Apesar disso, mete carta à Evangelina, então moça muito linda que eu conheci, e que tragicamente faleceu no acidente de autocarro da Universidade Sénior de Castelo Branco.


Vai saber da resposta e apenas apareceu a mãe da pretendida Evangelina, que era “mouca”...
Que não, que era muito nova, que até simpatizava contigo, mas do patinho saiu, despedido...
Vai para a tropa, soldado, pede um capote com divisa avermelhada de soldado arvorado.
Passeia, repasseia, abre o capote para entrar brisa, mas mostra, mostra a divisa...
Mãe, Evangelina, tia cunhada e até a prima, todos a falar, comentavam a façanha que pairava no ar!
Vai seguir a vida militar.
A mãe da pretendida, um dia faz por encontrá-lo e pergunta-lhe.
Óh Manel, já és furriel?
Que sim, e se vida não me correr mal, posso ser general!!!
Se lá fores agora, já tens sorte, disse.
Soldado, para a India mobilizado.


 Campo de concentração – 1962

Nheru, invasão militar, guerra declarada, preso, campo de concentração, alimentação muito fraca.
Pelotão de fuzilamento...
Um sargento do exército português, denunciou às autoridades indianas a fuga de dois soldados portugueses.
Estes quiseram linchar o sargento.
Formação na parada, com pelotão de fuzilamento de arma apontada.
-Pergunta, quem quer linchar o sargento, que dê passo em frente...
Todos ficaram parados...


 Goa-Centro da cidade de Mapussá.
Monumento a Afonso de Albuquerque

Pós Índia, mobilizado para Angola, onde a vida militar correu bem, tendo atingido o posto militar de 2º sargento.
Aproveitou a sua compleição física e o conhecimento que a vida lhe foi duramente oferecendo, e decide passar para os Serviços Prisionais.
Na Penitenciária de Malanje quatro anos, como subchefe, é entretanto promovido a Chefe, e transferido para Luanda, para a Cadeia Central, que chefiou.
Passa então a ser conhecido no meio prisional como “Chefe Grilo”.
Aposentou-se em 1988, depois de ter regressado a Portugal em 1975, tendo exercido as suas funções em Elvas, Covilhã e Castelo Branco sempre como chefe do Corpo de Guardas Prisionais.

 Angola-São Salvador-1966
Sem trela, com grande cadela...

Mas, o Manel Grilo, tem muitas histórias...
Em rapaz já com vícios, com o Joaquim Aço, já falecido, o Zé Maria, cambalhota, pela feira dos Santos saltavam para o carrossel e davam quase uma volta sem pagar.
O Manel caiu, apanhou medo e pediu dinheiro à mãe para o carrossel.
Não havia, mas ele sabia que no meio do arcaz do feijão havia uma bolsa com folhas de alface.
Retira uma e vai para a feira.
Tentam comprar uma bola, aproximam-se do tendeiro e este de vara na mão, toca a afastá-los pois sabia que viria sempre algo agarrado à mão, se tocassem na tenda...
Eu queria comprar uma bola, pedia o Manel! Quanto custa? Perguntava.
Respondia com cara de poucos amigos o tendeiro.
Custa quinze escudos, rapaz.
Se a vendesse por vinte, comprava.
Era assim, em rapaz, a simplicidade do Manel Grilo.
Claro que a Mãe Celeste deu-lhe uma grande surra, mas desta vez o Manel fez que havia desmaiado, com a língua de fora, pregou um susto à mãe, que esta já o afagava e beijava com receio de morte matada...
Outro amigo, o Manuel Borrego, agora no Lar Major Rato, contava-me que a sua Mãe Celeste, certo dia, levava de madrugada um cesto de verga à cabeça, mas que de dentro se ouvia um ruido de choro.
Vizinha do cabeço, a ti Raposa pergunta à Celeste.
- Ah Celeste, levas aí algum bacorinho?
Não, é o meu Manel... 


Especialista em caqueiradas, deitava-as na própria casa, conhecias de “cór” as maçãs de São João, as parreiras mais doces e as figueiras.
No futebol na tapada da senhora, tinha de haver sempre lugar para jogar, mandava sair e não havia revolta a dar.
Mas era um burrena, um “bom serás”.
Nunca me apercebi de violência sobre os mais novos e por ali todos convivíamos em franca amizade nas corridas, nas trocas de bilhetes das cadernetas, nas quedas, no eixo ribaldeixo ou no ferro quente.
As ajudas do Manel Grilo, foram ao longo da sua sofrida via, a sua bondade e a forma justa com que procurava desempenhar os difíceis cargos da sua vida profissional.
Do seu tempo, foi dos que chegou mais alto, teve uma excelente carreira profissional.
Diz com orgulho, que nunca teve qualquer queixa, apesar de por vezes, a sua forte compleição atlética entrar em disputa com os presos...


 Manuel dos Reis Grilo, foto atual

Hoje aposentado, foi para mim muito agradável, reviver em sua casa tempos passados e histórias simples da gente simples, com quem vale a pena, conviver.
Obrigado, Automora, Russo, Grilo, Manuel.

Manuel Peralta

1 comentário:

  1. Uma "estória" com sentido...Russo...Grilo...

    Palavra de honra, que conhecendo de vista o visado e sabendo que conhecido por "Altomotora"
    ignorava em absoluto a razão de tal anexim. Sempre o associei, a alguém que quando novo gostasse de ver passar o comboio, e como do Degredo à estação da CP, pela estrada velha nem era longe,correria até lá para o ver.

    Desconhecia em absoluto que fora voluntário para o serviço militar, e que além de detido na India, quando da invasão, até passou por um local em Angola, por onde uns anos mais tarde, em 73, também passei - São Salvador do Congo.

    Já na década de 80, quando morei uns tempos no Degredo, recordo-me do "Altomotora" ir tentar meter algum juízo na cabeça, a um vizinho que eu por ali tinha, e que morreu novo - creio que de nome Cipriano, o "Arrebenta".

    Porém adivinhasse eu, que o Manuel "Russo" também passara por Angola e locais onde também andei, e os textos e fotos que tenho no Panorâmio, sobre a guerra colonial no norte de Angola,decerto poderiam até ser mais completos e quiçá saborosos. Só temos vinte e poucos anos uma vez na vida...

    Fica-me essa mágoa. Mas ele ou alguém por ele, pode encaminhá-lo para esses textos com abundantes fotografias e descrições...

    A alguém que podemos dizer cresceu na vida a pulso e se fez a si próprio,e ao "homem do leme" deste espaço, que desenterrou esta saborosa "estória" de vida,só posso agradecer pelos agradáveis momentos que a leitura da mesma me proporcionou.

    Abraços para ambos.

    Zé MC

    ResponderEliminar