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domingo, 18 de dezembro de 2011

FILHÓS – NATAL

- Queres uma filhó?
- “Tchincarratchó...”!

ONTEM...

Era assim que, de mala às costas ou bolsa de farrapo batendo em mirrada nalguinha, revestida a ceroulas de emergência a caminho da escola da Pedreira, se divertia a canalha perguntando com o intuito de por à prova a sabedoria do colega.
Ia tudo a pé, quer caramelo ou geada, houvesse no quintal, horta ou na tapada.
Na família não havia rendimento, muito menos o mínimo, o garantido, pão quando o havia, era centeio, pelas festas, trigo.
Mas chegava...cheirava a Natal.
Aos cabeços procurar musgo e ramos, muitos ramos de esprunhadeira, a que se indevidamente se chamava azevinho, para fazer e decorar o presépio, sem plástico, a serradura de madeira das carpintarias para se fazerem as SCUT dos presépios de então, que transportavam, borregos, reis, naqueles tempos ainda magos, muitos pastores sem doutores...
Fazer as filhós, a missa do galo, o aquecer familiar junto à fogueira, a panela de ferro na lareira ainda a crepitar onde se fazia o banacau, o dormir, o acordar e correr para a lareira e, maravilhado encontrar um par de meias, cheias de amor de mãe, vesperamente a quatro agulhas tricotadas, em noites sem marido e pai, semanadas, imigrado, ao sábado regressado.

HOJE...

Lareira sem palameira nem pilheira, e lenha em vez de estevas ou giesta que pouco presta, lume certinho com lenha de azinho.
Livro de receitas...uma arroba de Espiga ou Branca de Neve, que também serve.


O tabuleiro e a farinha, alva, branca, espoada, peneirada...


Emergência antiga, 115, dez dúzias menos cinco, de galinhas de quintal, pica no chão, trigo, milho e se o apanha, lintecão...


Com varinha mágica batidos, envolvidos em bacia de zinco de água fervente, pré-aquecidos.
Ter muito cuidado, aquecidos, não cozidos, podem dar soltura e é bom que a massa mantenha a temperatura, sem correntes de ar, para fintar...


Azeite em espera...


Eis a massa, não dura, amassadura, batida por mão diligente, por mão de tia que deita fermento, e por avó que nem anda mal, que tempera de sal...
Dois peralteiros expectantes, espreitam distantes.


Óvando, mexendo, remexendo, enfarinhando, amassando.


Neto espreitando, aguardente, morna não quente, para quem está mais perto trepa por narinas, e se não tem cuidado chega às meninas, dos olhos, femininas.


Porto, vinho, por aqui sempre em discussão... tinto, ai Jesus que fica a massa escura, branco, ai Domingos que fica eslavaçada... discussão que não dá em nada, que quase já ninguém escuta, não esteja por ali o homem da fruta...
Sob a maceira, circunspecto, enfarinhada cabeça de neto.


Mãos de nora, nova, agora, alaranjam a vermelhidão de quem se ria, da Via Rara a Santa Iria.


Peneira, tocada por mão arteira, afarinhando, retirando olhos e abrolhos sem a passar pelos olhos.


Azeitando, morno, russo ou loiro, parecendo oiro, caindo sobre mãos e dedo com aliança, ainda não de pés para a cova que virá com a idade, mas resistindo, no Laranjeiro e na Cova da Piedade.


Amassando, envolvendo, com mão firme e macia como a linhaça, fazendo boa, a massa...


Massa com bolha, que salteia sem telha, contente, que rodopia como dobadoura, espreitada pela fiscalista rapadoura.
Esta, negra, indigente, esperando pelo IRS da boa gente.


Cevando a massa, trucidada pela Filipa, exausta, dividida, entre Rafael e Peralta...
Sobre a maceira debruçados, atentos à aula disciplinados, netos, enfarinhados.


Cruz se santificação, de indulgência por tal penitência, feita sobre a massa, tradição que como a fé, não passa.

Reza, oração...

São João, acrescente este pão.
Senhora das Graças, acrescente esta massa.
Em nome do Pai, do Filho, do Espírito Santo.
Ámen.


Caminha, quero eu dizer maceirinha.
O tendal, o cobertor de papa, a manta de ourelos, a coberta, confortam já a Santa Massa, devidamente aconchegada.
Ligeiramente inclinada para a massa poder crescer e não esparramar, ali fica em sala aquecida, para que fermente, levede, e faça agora por ela o trabalho que se lhe pede.
Manter os cascarões dos ovos por perto até que o estofego acabe, lavar as loiças, arrumar a sala, preparar a sala para a tarefa seguinte, FAZER AS FILHÓS.

ENTRETANTO, ALMOÇA-SE.

Nunca se almoça descansado.

- Vai lá ver como está a massa, pergunta a mais idosa.
Ainda não está para pressas, responde a, ou o, olheiro de serviço.
E assim se anda, neste vaivém alegre até que soa a frase esperada.


Estão fintas, estão fintas... estão quase a saltar da maceira.
A massa faz entretanto uns cagulos, óvulos, e está portanto óvada, e começa como que a rasgar-se, ficado assim como que asseiada de seio, macia, que mais mão menos mão experiente, deteta perfeitamente, ao palpar e não “apalpar” a massa...


Retiram-se então bacias de massa já finta, da maceira...


Fazem-se pequenas bolas de massa, para serem depois estendidas com o rolo de estender massa.


Com a cartilha, recorta-se a massa e fazem-se, conforme o gosto, pernas, perninhas, coxas grossas, pernangão e até belas trancas que, com muito chá de poejo mas bem doce, são uma delícia!
Assim mo disse o Zé Maria...


E, claro, sertã já com o óleo fervente, com sopa de pão, troço de couve verde, cascarão de ovo, em baile fervente, para desacelerar a espuma resultante da fritura.


Mão de Pedro, pesca com espêto, no salão da dança, filhó a filhó, perante olhares afinados e reprimendas de Rafaéis, que ora querem de perna entraçada, ora querem enroscadas tipo novelo de lã, com sol de praia de meio da tarde, enquanto os Peralta, o que querem é das caboverdeanas... coradinhas, sem serem pretas, assim só com um raminho...


Em alguidar de barro vidrado, descansam do baile, escorrendo os suores próprios de tão fervente dança.


Em caixa de papelão, revestida a papel vegetal, estão prontas para embarcar, para a alta de lisboa e para a margem sul, no Laranjeiro.


O cesto de verga, fica em Alcains.


Filhós...


...azeitonas retalhadas com sal grosso,


um, a caminhar para bom, vinho tinto,


é a minha santa tarde, e noite nesse dia.

Mantendo a tradição, sempre ouvi cantar.

Natal, natal,
Natal, natal.
Filhós com vinho,
Não fazem mal.

Viva, e, um bom Natal para todos.

Manuel Peralta

3 comentários:

  1. Muito bom! Já não ouvia alguns destes termos há uns bons anos!
    Abraço!

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  2. Parabens Peralta
    Mais um excelente trabalho com receita incluida e adequada a epoca ilustrado por optimas fotos que sao uma delicia para a vista.
    Um Santo e Feliz natal pata todos os visitantes do Terra deles.
    Teodoro

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  3. Que maravilha!
    As cá de casa (receita de Penamacor), não levam vinho em vez disso um chazinho de canela, são estendidas no joelho, no fim levam canela com o açúcar e uma oração diferente "Que Deus te acrescente." três vezes, em três cruzes sobrepostas, de resto é tudo igual! Até a música!
    Como não estamos no Natal, desejo-lhe uma santa semana!

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