Páginas

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Levavam uma gamela


De samarra de eucalipto,

Fez avô quatro gamelas.
Para Diogo e Tomás,
Voarem por conta delas.


Um tocado a fogo,
Outro a queimar a gás.
Ora passava o Diogo,
Ora passava o Tomás.


Eu vou à frente,
Clamava o Tomás...
Repenicava o Diogo,
Vai lá para trás....


Um a sair de bisca,
Outro a treinar para ás.
Assim voavam primos,
Quer Diogo quer Tomás.


No fim da pista,
Saiu faísca.
Embrulhou-se fogo com gás...
Catrapaz...


Abraçado,
Diz o Diogo ao Tomás.
É preciso muito cuidado
Quando se quer ser ás.

Avô a trabalhar a lenha...

Manuel Peralta

sábado, 9 de outubro de 2010

Rafeiro de Lata - TANQUE DAS FREIRAS

Ali, no Tanque das Freiras
Há um pouco de tudo...
Giestas, codêços, tremoceiras
Ervas altas, baixas, e até rasteiras.


Seco, face suja... sem polimento,
Doente.


De esquerda...
Quer de direita olhado.
Triste, só, e abandonado.


Em França, Estados Unidos, na Suiça, no Brasil, no Canadá, no Luxemburgo, no Reino Unido, em Itália, no México e até em Beja, Caféde e Taiwan...
Vai ser olhado.


Para quem devia cuidar
Por tal ter ordenado.
RAFEIRO DE LATA
Sem custos, vai ser dado.

Obrigado

Manuel Peralta

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Filho de sapateiro, se não doutor...

A tábua da lixa, o ferro de burnir, a forma de ferro e as formas de madeira, a cera, a sola, a tomba, as gáspeas e as meias gáspeas, a alma, a cerda, a linha e a anilina, a borracha e o atacador, os pregos, a sovela da borracha e a sovela da sola, as meias solas, uns pontos, os ilhós, a graxa, o cuspinho, o martelo, o sapato, as botas, as sandálias, o molde, a cola, o salto, o meio salto e o salto alto, a vira, o protector, a máquina de coser, o contraforte, a fivela, a escova preta e a castanha, o calfe, o pêz e a torquês...
A tábua de negra lixa, elemento indispensável de autoridade, qual beca de advogado, funcionava como uma espécie de paternal régua de professor primário para os filhos de sapateiro, se não endireitavam prego, se não regavam horta ou se jogavam bola em vez de escola.


Tábua de lixa, qual férrea viúva negra trajando de preta lixa, que afiava faca na vira que aparava e emparava a vida...
Tirar o molde para ajustar a fôrma, de pé no chão para homens e mulheres já entradotes, contrastava com pé posto em elevado banco por donzela ainda sem noivo mas com dote, ou noiva casadoira já com pregões corridos e relidos na porta da matriz...como se diz.
Vi-lhe a perna do joelho ao artêlho, gabava-se ele sapateiro arteiro, pois vinha de saia plissada na Menina Camilinha comprada, e tirava molde para o direito e para esquerdo explicando que com os pés ainda a crescer, por certo, tinha de tirar molde outra vez..
Enquanto o “menino” acendia e rescendia no fogareiro, mexendo com ponta de torquês, aquecendo ferro de burnir para em vira pôr pêz, o “galinha”, por vezes de “vela acesa”, endireitava prego ouvindo o Ti Zé Cego... e galinhas tenho sete, e uma delas não tem crista, também lá tenho um marreco, que agora é contrabandista...
Anquetil, ciclista em foto esparramada em parede, rádio enforcado com corda pendurado em caibro com prego, bancos sem espaldar mas com emoções que serviam em matações, em almoços de sapateiro matador de “marrantcho”, sempre atrasado, qual primeiro ministro, artista, que para importância se dar, todos fazia esperar.
Sapateiro artista, aparador de viras e barba rija de semana, envolvidas em cachaço de pó de arroz sem aparato, com amaciador 444.
Perguntando e dizendo muito depressa, atirava enquanto barbeava...
Quemdevintecincotiraquantosficam?
Vinte, respondia! Quinze, dizia.
Ou parodiando lisboeta, que tentava gozar com safões de pastor sem calor, cumprimentava, perguntando.
Bom dia, pastor de vinte ovelhas! Respondia o pastor, ao alfacinha. Vinte ovelhas, não. Estas ovelhas, outras tantas como esta, e metade destas, é que são as vinte ovelhas. Com a breca, quantas ovelhas são, seu alfaceca?
Espalhados pelos bancos, de botas uns, de tamancos, outros, pais e avós aguardavam ansiosos por resposta de filho ou neto, caso afilhado não estivesse por perto.
E, um côvado, quanto é? E uma grosa? E um alqueire? De semente ou azeite, perguntava afilhado com receio de rasteira, às perguntas de algibeira.
Das pedreiras, muitos, da terra, bastantes, todos conviviam em família esperando vez sem senha de fila, sem rixas, ali não se faziam bichas, cada um contando pouco das suas apertadas vidas, espreitando o sempre diligente Requeita ou a circunspecta Marreca, que serviam tinto, traçado, ou “champerrion” adoçado.


Por ali aparecia, um homem, Matias, intelectual a dias, que entre dentes aplicava palavras de sete mil e quinhentos.
Intelectual que era, atagantava Manuel, já sapateiro, que em semana e meia em nova oportunidade, no Ti Sebastião Palhaço, sai barbeiro, diplomado.
Desafiando o saber ao bi diplomado, atirava.
Ó Manel, o Requeita queria que eu ao Domingo fosse buscar a Sexta. Disse-lhe que não porque hoje é Domingo e não é dia de trabalho, mas amanhã Segunda, vou à Terça, trago a Quarta, levo-a à Quinta, trago então a Sexta porque só é precisa para Sábado.
Sala de aula em silêncio... até o Rogante, cão da Rita, enfiou as orelhas entre as patas e ganiu...
Os homens alunos, descobertos, coçavam parcos cabelos e cofiavam barba assustada na iminência de corte rente.
Entra ainda mais gente, e a sala, qual cartório, passou a auditório.
Manuel que tinha feito quarta classe com distinção, enfrenta Matias, qual Lente, de pente.
Porque tudo era de ouvido, em linguagem falada, homónimas e homógrafas entram em debandada mas, Manuel, elevando o tom de voz, qual catedrático sem cátedra, responde.
Domingo e Segunda estamos confessados, a Terça é a terça de terceiras, terra onde se ganhava um terço do que se colhia, a Quarta é uma medida de volume, uma quarta de feijão ou milho, a Quinta, é a quinta de propriedade, e a Sexta, é a cesta que o Requeita queria que ao Domingo, fosses buscar.
Era, foi assim durante vidas o ambiente em sapatarias e barbearias, ponto de encontro entre saberes, entre dizeres, no interim dos afazeres. Ensaiavam-se por ali também os primeiros passos da esperteza que nem sempre é prima do saber...mas uma fonte de simplicidade, cultura popular e amizade.
Se quem me lê, percorrer mentalmente as ruas da terra deles onde sapatarias e barbearias existiram, e se se lembrar de quem lá viveu, poderá perceber o título desta aperaltada prosa.
É que eu tenho em Beja um bom amigo, filho de sapateiro, não doutor, engenheiro.

Manuel Peralta
Texto publicado no Reconquista de 8 de Outubro de 2010

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Conjuntos Musicais - ÁGUIAS NEGRAS

Ao mesmo tempo que os Tranquetenas do Ritmo, oriundos do Chafariz Velho, tentavam singrar no meio musical, para os lados do Largo de Santo António, mas já a caminhar para o cemitério, aparece igual febre musical, treinada em serenatas, descascas em ruas pacatas...
O Manuel Barata Ruivo, vulgo, Manel do Cemitério, e vulgo ainda Manuel Camilo, em companhia do António Geada e do Jaime Godinho, baptizaram este trio de amizade e boa vizinhança, com o nome de CONJUNTO ÁGUIAS NEGRAS, conforme está escrito no verso da foto que o Manuel Ruivo, Manuel Camilo e Manuel do Cemitério, gentilmente me cederam para aqui publicar.


Da esquerda para a direita, Manuel Ruivo (Camilo), António Geada e Jaime Godinho.
O Manuel Ruivo, que ficou órfão de pai pelos quatro anos e foi educado em colégio nos arredores do Porto, esteve com destino marcado para aplainar almas, ser padre, mas a tempo, recuou, e decidiu em Janeiro que queria ir aplainar tábuas... no Parteiro.
Construiu o seu próprio instrumento, a viola, e, depressa, passou a viola solo das Águias Negras.
De fatinho completo com gravata, mostra a foto um estilo de músico que nem necessitava de olhar para a escala para solar o “The house of the rising sun”... por outro lado o António Geada, marcador de ritmo em bateria que era uma bacia tapada com pano, pele que durava todo o ano, por ser no dizer do Manel já um artista, ficou baterista.
O Jaime Godinho, que usava lacinho, e trazia viola em costas de artista, porque cantava bem era o vocalista.
A especialidade, era a grande vontade, como disse mais atrás, mas não havia semana que ora uns ora outros não contemplassem cinco a seis, queridas meninas, em serenatas.
Inicia-se por estes tempos nestas lides, um tal José Pedro Amoroso, contemporâneo dos Águias Negras que despertava em fado para uma verdadeira e exclusiva vida de artista.
Falo é claro do Alcainense, cujo nome artístico é o PEDRO VILAR...
Por morar pegado ao cemitério, alcunharam-no de Manel do Cemitério, por ser neto materno de avô Camilo, sobrecarregaram-no com Camilo, ele que em criança não podia dar uivo, assim ficou Manuel Barata Ruivo.


Na sua residência pegada ao cemitério, especializou-se em trótinetes com rolamentos já rolados da oficina do António Ramalho, em guiadores de corridas de canalha em que padalavam em imaginária bicicleta, de guiador nas mãos em corridas, eu sei lá até onde...e em que partidas.
Estes três amigos nunca solfejaram partitura, de Conservatório, só conheciam o do Registo Predial, mas viveram bons momentos de elevada amizade, de aposta na sua capacidade de se superar, de ir mais além, quais amigos alegres sempre a cantar.
Esta liberdade e amizade, da rua, de todos e não apenas tua, perdurou... e o sonho de Águias Negras, tal como a febre, quando passou, acabou.

Manuel Peralta

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Líria doente

...doente, irremediavelmente doente e sem tratamento. Assim está a Líria, a ribeira sem eira nem beira...


Câmara e Serviços Municipalizados hoje realertei, não cumprem lei...


GNR da natureza, SEPNA, e à Hidráulica Tejo também fotos enviei...


RTP, SIC, TVI
... e à televisão local, recomendei...


Autarquia local muito longe da grei!!!



Prometo, não desistirei.

Manuel Peralta