Festas do Verão
Festa de Santo António
Quando o ano passado, para o Terra dos Cães, fiz um trabalho sobre o Ti João Moleiro, relativo à sua arte de canteiro, e enquanto me mostrava de dentro de um arcaz embrulhadas em papel de jornal, as suas obras de arte em cantaria, deparo com um programa das festas de Santo António, realizadas em 1961.
Mil novecentos e sessenta e um, relembro para os menos atentos, foi o ano em que, em Angola, rebentou a guerra colonial, e em que, o Presidente do Conselho de Ministros de então, Dr. Oliveira Salazar terá dito esta frase que ficou célebre... ”para Angola, rapidamente e em força“.
Voltando ao documento refiro que a pedido meu, o ti João Moleiro acabou por me o oferecer.
Por se tratar de documento que presumo único, em muito bom estado de conservação, com meio século de existência, e por retratar de forma excepcional como eram as festas de Alcains, não resisti a digitalizar tal documento, e para a posteridade dar-lhe vida aqui no Terra deles...
Sendo ainda mais rigoroso, não se trata de um programa habitual inserido apenas numa folha de formato A5, mas mais propriamente de um livro, plaquete, de capa, contracapa e oito folhas interiores com publicidade e programa das festas ao centro.
A capa que acima se reproduz, trata-se de um trabalho de linóleista, em linóleo, uma placa de material que manualmente recortado permitia a impressão em equipamento gráfico e a respectiva reprodução.
Mais sofisticado que a “Janela“ do 5 de Outubro, com o Lafrau à tabela...
O linóleista foi na altura o António Alves, da Tipografia Artis Alves, tipografia que era de seu pai, um tipo porreiro, localizada então ao fundo do lado direito de quem desce a avenida da praça de Castelo branco.
Hoje o António Alves é um jornalista do Povo da Beira e de uma das rádio locais do concelho.
O desenho, lindo desenho diga-se em abono da verdade, representou durante muitos anos a actividade principal de Alcains, numa junção feliz, e que perdurou até que a autarquia presidida pelo Engº Rogério Martins apresentou a bandeira que hoje, e bem, representa Alcains.
Delicioso é todo o texto da página supra, bem esgalhado, muito bem adjectivado, e de um apelo à união de todos, para que a MAIOR ALDEIA DE PORTUGAL tivesse, no presente e no futuro, as maiores festas de todas as aldeias de PORTUGAL.
Muito denodado e acrisolado BAIRRISMO...
Porque se trata de uma plaquete, a comissão de festas de então recolheu publicidade das principais actividades, empresários e empresas que existiam em Alcains em 1961.
Compilando as actividades inscritas no programa apurei o seguinte:
Duas fábricas de moagem, Branca de Neve e Sicel, a Metalurgia Isidros, oito empreiteiros, dezassete actividades comerciais onde se incluem entre outros, sapatarias, alfaiatarias, venda de máquinas..., uma barbearia, dois cafés, duas oficinas de automóveis, uma actividade de serviços, uma chapelaria, duas carpintarias, uma caldeiraria, uma casa de fotografia com representação em Alcains, uma farmácia, duas padarias e uma oficina de pirotecnia.
Com algum esforço de visão e clicando sobre as fotos para as ampliar, podem deliciar-se com nomes de casas e pessoas que connosco se cruzaram, a quem comprámos ou vendemos algo, que nos deram boleia, e que com todos conviveram.
Desta página presumo que apenas o Sr. Manuel de Oliveira Ramos é vivo, e, observem as frases de um despertar comercial, muito incipiente ainda mas em que se procurava a diferenciação nos modos de vender cada um o seu produto.
Nesta página é bom de observar que ambos os empresários, pagaram meia página cada, decerto mais cara, resultado evidente de maior desafogo financeiro, ou tambem de maior vontade de ajudar a comissão das festas.
Não posso deixar de relevar o Sr. José Marques Rafael, alfaiates diplomados, e de que tantas e lindas histórias se contam daquela personalidade ímpar naqueles tempos... mas isto fica para futuros comentários dos leitores e seguidores deste blogue.
Quem atentamente ler este programa das festas, decerto não ficará indiferente.
Quem não viveu o que aqui se reproduz?
Os nomes, os conjuntos, o arraial, um simpático grupo de meninas da localidade, enfim toda uma organização que, anualmente, esforçados festeiros punham de pé.
De referir o logótipo do Sr. António Lopes Crujeiro Galvão, dois cães a tentar esfarrapar um chapéu, honrando claro a sua terra...
A Sicel de tempos áureos, exportadora... hoje em acelerado estado de degradação, fechada.
Dizia o Ti Chico Preto que o nosso lar será cem vezes mais atraente, se nele estiverem as suas mobílias... dos restantes da página, já todos faleceram.
Quem não se lembra do Sr. João Baptista, da Casa do Povo, do ciclismo... e do Simão Trindade Vicente que introduzia o tema, de pagamento a prestações, eventualmente uma inovação na época?
E do Sr. Soares da Farmácia Nacional, que pregava partidas de carnaval frente à farmácia, colando no alcatrão moedas de cinco escudos, que as pessoas tentavam arrancar...
E do Sr. Joaquim Teixeira, que tão bem tocava violino, acompanhando nos teatros as operetas e as variedades na Casa do Povo?
E do Sr. Henrique Caniça que se encarregava de todos os trabalhos, mesmo os mais difíceis?
Passar por estas fotos, por este programa, passa-se um pouco pelo Alcains de há cinquenta anos...
A comissão das festas que nos dias 22, 23 e 24 de Julho de 1961 as realizou era a seguinte:
João José Baptista
Porfírio Isidro Almeida
Helder José Marques Rafael
José da Cruz Soares
João Farias Baltazar
José Lopes Escudeiro
Francisco António Maguejo
Adriano Barata
Tinha eu nessa data quase 12 anos, decerto por lá andei.
Guardo da festa de Santo António excelentes recordações, do ciclismo, dos bailes, dos passeios pelo arraial, do fogo preso, das bulhas, do jogo da vermelhinha, dos arremessos com bola de pano às latas, das barraquinhas de tiro, dos tendeiros que ao fim da noite se iluminavam a gasómetro, das orquestras que com aqueles instrumentos de sopro entoavam os boleros, o tchá-tchá-tchá, os tangos e as valsas em ritmos sul americanos.
Agora, é a festa da malta da tropa, da malta do pavilhão, a onomástica, a da malta que foi à inspecção no mesmo ano, das esposas que nasceram no mesmo ano quando acompanhadas pelos cônjuges, a festa da gente que nasceu na mesma rua, um baptizado aqui, um casamento acolá... tanto festejo que quase morro... mas lá diz o meu pai, “não pode a cadela com tanto cachorro“.
Manuel Peralta