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sábado, 18 de junho de 2011

Maria “Rainha“

Maria dos Anjos Rainha.
Maria dos Reis Patrocínio Raposo.


Fez 99, repito, noventa e nove anos, no passado dia 5 de Janeiro de 2011.
É actualmente a segunda mulher mais idosa de Alcains.
Viúva de Joaquim dos Santos Rafael, mais conhecido por “Jaquim Seguérro” que, além da família, gostava muito de tabaco, cigarro, e ao que conta a história ainda mais da pinga...


O casal teve dois reis, o Manuel e o João e duas rainhas, a Céu e a Alice.
Residiram numa Travessa da Travessa Dr. Vicente Sanches.


A Tia Maria dos Reis Patrocínio Raposo, Maria Rainha, é irmã do Ti Zé Cego do cabeço, já falecido e com biografia no Terra dos Cães.
Passados tempos de casados, o ti Joaquim Cigarro, como gostava bastante da pinga aparecia por vezes entornado, e fumava mais que o forno do Cuco...


Não fazia questão onde o havia, pois morava a dois passos da taberna da Ti Marreca e do sempre prestável e incansável Ti Requeita.



As coisas não corriam bem, e a fama, devagar como um tropeço, passou do Outeiro para o Regato da Sola e deste para o Cabeço.
Não vendo, mas ouvindo de sua irmã a desdita, meditou, meditou em noites de calor e maresia e saiu esta poesia.


Onde vais Maria dos Anjos,
Onde vais tão triste a chorar.
Ai...Ai...Ai...
Vou a ver do meu marido,
Que está na taberna a jogar.
Ai...Ai...Ai...

Está na taberna a jogar,
Com uma grande borracheira.
Ai...Ai...Ai...
Se me querias fazer isso,
Deixavas-me estar solteira.
Ai...Ai...Ai...

Deixavas-me estar solteira,
Solteira é que eu estava bem.
Ai...Ai...Ai...
Em casa dos meus pais,
E à sombra da minha mãe.


Visitei a Ti Maria Rainha no Lar acompanhado pelo seu filho rei Manuel e a sua esposa, irmã do Zé Maria Cambalhota, que me desculpe, mas não me reconheceu, ela que tantas vezes, me falava no Degredo quando visitava sua familiar.
A minha mãe, ainda hoje canta esta cantiga que aprendeu, quando era mais nova.
Vidas duras de outros tempos, retratadas por um cego que via, em versos de um realismo duro como aquelas vidas.

Manuel Peralta

Catar

Ti Lurdes, empreste-me lá o pente de derruber, agora tenho um pouco de vagar, e quero dar ali uma malha à minha Cocissã, (Conceição).

Era assim.


Normalmente nos domingos à tarde, todas malhavam umas nas outras, aquilo era uma verdadeira malhação… agora cáto-te eu a ti, e depois catas-me tu a mim…


Deitadas com a cabeça no colo, normalmente sobre lenço preto para acentuar o contraste, começava o sacrilégio da catação.
As lêndeas, piolhos bebés, os piolhos propriamente ditos e as favas…
Deixe-me já gritava o Zeca, enquanto a mãe o arrotchenava, calcando-lhe ainda mais a cabeça contra o colo.


Unha afiada lavrando cabeço com cabelo tipo giesta negral lavada a clarim ou sabão macaco…
Olha esta fava, exibia-se publicamente o troféu, quando um peso pesado era caçado e entre as unhas estalado, até se ouvia e era agora a altura de levantar a cabeça fria…


Os mais impampes passeavam, por vezes, pelos colarinhos de camisas córadas na ribeira do Moínho de Baixo ou no Laréco, e não raro em plena missa, as do banco de trás, viam passear pelo lenço sobre a cabeça os mais atrevidos e ainda não caçados.


Nos carrapitos, nas tranças, nos rabos de cavalo,nas franjas, e por fim nas permanentes nas mulheres, na marrafinha e no risco ao lado nos homens esta praga passou e acabou.
A expressão de aborrecimento “ vai-te catar “ diz bem da incomodidade…

Manuel Peralta

Tirar bichas

Quando a canalha corria e ia com o rabo de lado, quando se sentavam e levantavam uma das nalguinhas, era de desconfiar, ali haviam bichas...
Ténias, lombrigas.


Havia uns mais atchacados que outros, e, claro, como a casa de banho era o universo quando se tentava limpar o sêsso, estava um pendurão que tinha de ser tirado à mão, muito mais macia que lixa, a bicha.
Por vezes nas ruas, nos patinhos e batoréis quer fosse mãe ou tia, deitavam o petiz de bruços no colo, abriam a ceroulas de emergência e ficava ao léu alva meia lua de risco ao meio...
Com um trocinho de couve, qual bisturi de cirurgião, pesquisavam, e as que apontavam, eram retiradas e mostradas para gáudio da canalha que assistia...


Claro no dia seguinte tudo sabia e vinham as tricas, fulano tem bichas...

Manuel Peralta

Rezar o Torcido

Era criança.
Tinha acabado na Tapada da Senhora, mais uma prova de eixo ribaldeixo, caramel ao pé do eixo...
Já no onze, com os sinos de Mafra em bronze, estava o Alma Grande, um tanganheirão que se ergueu e de nada me valeu...
Eu, caído, e de pescoço torcido.
De pescoço ao lado cheguei a casa calado.
Tocou a rebate na rua do Degredo, assembleia de vizinhas, a ti Mari do Carmo Paposeca, a ti Mari Zé Arrebenta, a Juliôa e a Cafedenha que cozinhavam a lenha.
Folhas de saião, papas de linhaça com ortigas, de chixéfra, unto sem sal que não fazia nem bem nem mal...
Porque não havia álcool e não me doía dente, acabei esfregado a aguardente.
Não passava.
Voltaram-se para o sobrenatural, rezar o torcido.
A caminho da Pedreira, pela mão de minha mãe, depois de passar o Regatinho, na primeira cortada à direita lá estava a extensão sobrenatural de saúde, com a respectiva médica de família de então, a Ti Maria Joaquina Russa.


Entrámos, passado a patinho, fico sentado em cadeira de palha, a minha mãe poisou a cesta de verga com meia dúzia de ovos e uma vassoura de giesta, o preço da consulta, e começa a reza do torcido.


Loira, de apelido russa por ser pobre, olhos esverdeados parecia uma Nossa Senhora de carne e osso, no seu avental de cornucópias drapeadas...
Trás lá a estopa...
Sete nós, sete pai nossos, sete avé Marias ali, de rajada...e eu já de colar na pescoçada...


Dizia...

Mão no peito,
E no bimbigo.
Destorce, destorce,
O que está torcido...

Ámen.

Manuel Peralta

domingo, 5 de junho de 2011

Os Cães que se cruzaram na minha vida...

Claramente um título provocatório para aguçar o apetite de algum distraído navegante que encalhe neste Blog com um nome tão singular.
E que justificadamente poderá interrogar-se: afinal onde estão os Cães e as suas “estórias”? Afinal onde estão os protagonistas que farão juz, ao título deste Blog? Sim, onde estão? E eu nesse particular também não posso prestar grande ajuda. Lembro-me de uma expressão, “ o cão do Guerra”, mas por mais que me esforço, não consigo descortinar o contexto em que a mesma frase era pronunciada.
Talvez “o homem do leme”consiga aclarar esta dúvida.
Vamos porém às “estórias” que tenho para contar, envolvendo alguns dos melhores amigos do Homem.


A primeira, aí vai. Década de 60, Coimbra, e um quarteto alcainense alojado na mesma casa, aonde em determinada altura existiu uma cadela, plebeia, sem pedigree, pouco mais que cachorra, e que acudia ao exótico nome de Muxima. A dita, em determinada altura dava-lhe para roer tudo o que pudesse apanhar. Sapatos, roupas, livros, não estavam a salvo naquela casa.
Na mesma casa, ainda com o 5º ano do Liceu às costas, alojava-se um outro hóspede de nome Zé Oliveira, já na altura um humorista do lápis e da escrita, com créditos firmados. E hoje, até consagrado em meios internacionais do Humor, com abundantes citações na NET. Pois o bom do nosso amigo, com um feitio especial, e a quem o “homem do leme” companheiro de quarto, também de fino humor, conseguia fazer ir aos arames, tinha uma camisa de cor bege, cujos colarinhos, foram um dia o alvo dos caninos da Muxima! Filosófico, o alvejado, referia, “a cadela está visto que gosta é de bolacha baunilha e confundiu o colarinho da minha camisa com essas bolachas”!...
E ríamos a bandeiras despregadas, com a associação daquela camisa às gulodices...
A Muxima dormia no quintal, acimentado. Tinha ladrar fácil aos ruídos da Rua e derrapava nas corridas para assinalar a sua presença. Derrapagens, que aconteciam com uma parede de permeio, por alturas do travesseiro do “homem do leme”. E acordando-o ou não, este foi também uma vítima do comportamento daquela cadela maluca que nunca mais esquecemos...


As “estórias” seguintes com o melhor amigo do Homem, remetem-nos para os 2 anos passados no Norte de Angola, paredes meias com o ex- Congo Belga. Os militares regra geral gostavam bastante de cães. Os soldados, sobretudo os de meios mais rurais, viam neles os animais que tinham ao deixado na sua terra distante e afeiçoavam-se-lhes de igual modo.
Claro que ali, o capim, o clima equatorial, muito calor e humidade, tornavam muito efémera a vida destes animais.
O meu Pelotão de Sapadores não constituía excepção e chegou a ter por sua conta 2 cães. A mim era-me relativamente indiferente tal predilecção, mas que a mesma ajudava a manter o moral dos militares, era inquestionável.
Não me agradava a incorporação destes animais nas colunas e muito menos nas nomadizações, em que muitas vezes o silêncio era a palavra de ordem que os cães poderiam perturbar, agitados até pelo farejar da muita caça existente.
Daquela vez tinha pela frente uma nomadização de 2 dias e 2 noites no Mato, e levar comigo um cão não me agradava. Mas na altura da formação da coluna que nos levou até à zona a patrulhar, alguém ocultou o Sapador, nome que davam a um dos cães, e só chegada a altura de saltar das viaturas, dou pela presença do inesperado “reforço”, que latia entusiasmado junto de quem o ocultara. Fiz-me desentendido, mas todos entenderam que eu não gostara da surpresa. Tínhamos para início daquelas 48 horas, que atravessar uma Mata de razoáveis dimensões chamada de Mossuco, que apenas uma picada nem sempre nas melhores condições atravessava. Com um ou dois pontões de permeio, já por lá improvisara a substituição de uns troncos e era com cuidado, transitável motorizada.


Daquela vez porém eu teria que andar por ali 2 dias e resolvera dispensar a escolta que já retornara a Noqui, para aí a cerca de 20 km, talvez menos.
Organizo o GC em 2 grupos. Faríamos a travessia da Mata apeados, em coluna por um, utilizando o jargão castrense, ou bicha de pirilau, como vulgarmente se dizia.
Os 2 agrupamentos formados, partiriam distanciados cerca de 10 minutos, para mutuamente não se perturbarem na deslocação. No 1º agrupamento, seguiam 2 graduados chefiando 2 secções de 6 militares.
Eu fiquei no 2º grupo, também com uma dezena de homens, incluindo o operador de rádio, com um volumoso Racal às costas, e baterias para 2 dias. Quem só conhece o telemóvel, não faz ideia do que os operadores de telecomunições sofriam, tal qual como os enfermeiros, cuja bolsa de 1ºs socorros, pesaria uma dezena de Kg. A situação era de tal ordem, que em vez da G – 3, a sua arma orgânica seria a pistola Walter. Diga-se de passagem, que mesmo suportando peso suplementar, nunca vi ninguém trocar aquela por esta.
Passados cerca de 10 minutos, avança o meu grupo, em silêncio, e atentos às margens da picada, quando no interior da mata, um resfolegar, seguido de um fogachal, fazia investir na direcção dos militares, um javali de peso razoável, que o Sapador atacara e que veio a morrer aos nossos pés. Refeitos da surpresa, urgia vermo-nos livres dele.


O Racal, no meio da mata não conseguia contactar o quartel para vir uma coluna recolher a preciosa presa. Lá à frente, estaria o 1º grupo, apreensivo pelos tiros que ouvira à sua rectaguarda. Portanto, toca a pegar no javali, revesando-se os homens no seu transporte e à medida que nos aproximamos do fim da picada, um grito de “somos nós” para que não fôssemos surpreendidos por “fogo amigo” .
E não há dúvida, que fomos encontrar os nossos camaradas, alapados ao terreno, e com as armas apontadas para onde tinham ouvido os tiros.
Racal em acção, vem a coluna para recolher o javali, com a ressalva que não se esquecessem da parte que cabia aos caçadores, nem de um osso para o Sapador!
Aqui está como um cão, permitiu melhorar ligeiramente o rancho da companhia por um dia.


A “estória” seguinte, também com um fiel amigo por protagonista, deu-me algum trabalho, e um nocturno e valente susto, aos Pelotões instalados no Morro de Santo Antão, sobranceiro à Vila. As informações e os alertas da DGS, faziam prever o pior. E perante essas circunstâncias, os
Sapadores, eu em particular, porque fui sempre eu a assumir a acção, tive que armadilhar com Minas Anti-Pessoais, um perímetro a menos de uma centena de metros dos 2 Pelotões instalados no topo do Morro referido.
Operação efectuada com cuidados reforçados e sempre com um graduado colado a mim, para ver como ficavam as Armadilhas e o grupo restante disperso para fazer segurança, quanto mais não fosse a alguma peça de caça mais curiosa ou a impedir que algum cão dos pelotões próximos se aproximasse e esticasse os arames, o que seria o diabo! Não estaria decerto aqui a contar esta “estória”.


Minas instaladas, e prontas a ser activadas, embora um Ten. do SGE, me fosse sempre dando conselhos amigáveis, mas que nunca segui,« nosso Alferes, deixe as Minas com as seguranças montadas; nem imagina o trabalho que cai na Secretaria quando morre um Alferes».
Um bela noite 2 enormes estrondos que ecoam pelo vale, e pregaram um valente susto nos pelotões vizinhos das zonas armadilhadas. Acordo, corro para o posto de rádio, confirmam-me terem visto 2 clarões, eu recomendo muita atenção, e que ninguém se atreva a ir ao local.
Logo de manhã, o Com. chama-me para ir ver o que se passara e repor o dispositivo.
Entretanto chega a informação de um dos Pelotões. Um Cão, rafeiro pequeno, que pertencia ao Pel. de Canhões, e costumava montar guarda acompanhando a sentinela, surgira todo esfacelado e a ganir, com sinais de ter sido ele o autor da proeza.
Chego ao local e verifico que o autor teria sido mesmo esse cão. Pequeno,
como as minas estavam a cerca de 20 cm do solo, esticara um dos arames e activara a primeira, fora cuspido para os arames a seguir, estoirara a 2ª, e como a seguir o terreno tinha declive, ao ser cuspido, e como era rasteiro, os estilhaços passaram a rasar-lhe o pêlo.
Aquele Cão superara uma prova pouco menos que impossível! Sobrevivera aquilo que para um ou mais homens, seria uma morte mais que certa! E lá tive que repor com iguais cuidados o dispositivo! Mas a
“estória” deste Cão suicida, nunca mais me esqueceu!


A outra “estória” menos aventureira, mas que envolvem sentimentos e esperteza natural dos cães, encontrei-a descrita e ilustrada, num livro sobre uma Compª que também serviu no Norte de Angola, na Canga, no tal local muito perigoso, e que tinha o mesmo nome do bar, que a dupla Horácio – Kim Ramalho, tiveram na estrada nacional a caminho da Lardosa.

Fonte: ANGOLA – As Brumas do Mato, livro do Alf. Milº Capelão Leal Fernandes e com ilustrações do então Fur. Milº João Chichorro, hoje prestigiado artista plástico. Resumo da “estória” de um Cão chamado Mondego – um cão medalhado. É a “estória” de um cão, dos muitos que existiam nos Quarteis e que um Fur. Milº adoptou e ensinou nas horas vagas de tédio, e que era de uma capacidade de entendimento assombrosa. Aprendeu a dar a mãozinha, a fazer continência, ia nas oper. para o mato, dormia na tenda do amigo, quieto, calado, mas atento. Com
uns óculos que lhe adaptaram para não se ferir no capim, o Mondego, seria um espectáculo! E se por acaso não saía em operação com o amigo, quando este regressava ao Quartel, pulava de alegria, e o seu dono, retirava o cinturão com o cantil e as cartucheiras, pendurava-lho no dorso e dizia-lhe, leva para a caserna, e o Mondego altivo e garboso, cumpria essa missão. Quem se aproximasse, não se livrava de uma rosnadela. Quando o amigo estava de serviço e lhe competia passar ronda aos postos de vigilância, acompanhava-o e foi aprendendo as rotinas. Por vezes, o seu dono ordenava-lhe : Mondego, vai passar ronda. E obediente e compenetrado do seu papel, rosnava se encontrava alguém a dormir mesmo que a fingir. E só depois passava ao posto seguinte. E se houvesse escadas para subir, subia mesmo no cumprimento da sua missão. Está-se mesmo a ver que um cão assim seria a coqueluche dos Fur. Milºs.


Porém, é bem verdade que não há mal que sempre dure, a Canga não era local que se recomendasse aos amigos e a Comissão aproximava-se do fim. E o Mondego, por ali meio perdido, na alegria dos que partiam e nas caras novas que não conhecia, triste, junto a uma das Volvos que transportaria a Compª para Luanda. Um soldado, vendo o animal assim tão triste, diz-lhe Mondego, dá cá a mãozinha, faz agora a continência, e o animal obediente fazia. O motorista de uma das Volvos, vendo aquilo, aproxima-se e diz-lhe, dá cá a mãozinha e o animal embora não o conhecendo, repete aquilo que sabia.
Mas este cão é um espanto! Quem é o dono? Indicam-lho e propõe-se logo ali comprá-lo. Mas o Fur. Milº que se afeiçoara aquele cão, responde-lhe. Não posso vendê-lo. É um cão do Mato. Já cá estava, quando chegámos. Mas vejo, que consigo fica bem. Levamo-lo para Luanda e lá dou-lho. Já é tempo do Mondego acabar a sua comissão no Mato. E já em cima da Volvo, o Fur. Milº diz-lhe: Mondego salta para aqui. E embora a altura da carroçaria fosse superior à dos Unimogs para os quais saltava com facilidade, o Mondego de novo com outro ânimo, salta e aninha-se junto do amigo, a cujo saco fica de guarda. E como se tivesse renascido, aí vem o Mondego a caminho de Luanda.
E Leal Fernandes, evoca cerca de trinta anos depois, as palavras que aliam ironia, sensibilidade e saudade de Chichorro, que lhe diz: o Mondego era um cão medalhado! Bem merecia uma cruz de guerra!
E que conclui – era um cão mas sempre o considerei um bom amigo! Uma espécie de extraterrestre que nos ajudou a passar a vida no Mato e nos deu muita sorte!...

Estas “estórias” dos cães na guerra, não é tão inédita quanto isso. Ainda há poucos dias revi, o inesquecível “O Dia Mais Longo” que ilustra o desembarque das tropas aliadas na Normandia, e lá surge um oficial, creio que escocês, que segura à trela, sob intenso bombardeamento, um cão, este com pedigree, e duma raça cujo nome não conheço. E a grande preocupação do dono, que se mantém de pé, é a de que o animal já de si rasteiro e com focinho de poucos amigos, se baixe, para não ser atingido pelas balas nazis!...

A “estória” derradeira foi por mim testemunhada na Empresa onde trabalhei mais de 20 anos, no Rossio ao Sul do Tejo em Abrantes. Envolve também alguma carga sentimental. Neste caso, era um Cão, rafeiro sem quaisquer atributos no seu perfil genético, que dedicava o seu carinho a uma Pá Carregadora. A Pá Carregadora saía da Fábrica e ia à Estação da CP, descarregar vagões com sementes e carregar camiões, e o Cão não abandonava a dita. Ao fim do dia, a máquina regressava e o Cão regressava com ela.
Numa altura, a máquina esteve em reparação numa oficina no exterior, e enquanto por lá se manteve, durante o dia, o Cão não abandonava a oficina. Cumpria o seu horário ...
Vinha dormir à fábrica, mas logo de manhã, como função que lhe tivesse sido distribuída, aí ia ele a caminho da oficina, onde a sua amada máquina estava em reparação. E isto durou 2 meses! A máquina regressou e o Cão com ela.

E pronto. Quem por aqui navegue distraído, já não pode dizer que não encontrou “estórias” com Cães. Não da terra, mas contadas por alguém da terra deles!...

MC

Do autor, ver:
Textos e fotos em : Panoramio photos by José Castilho
Galeria Noqui