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sábado, 18 de junho de 2011

Rezar o Torcido

Era criança.
Tinha acabado na Tapada da Senhora, mais uma prova de eixo ribaldeixo, caramel ao pé do eixo...
Já no onze, com os sinos de Mafra em bronze, estava o Alma Grande, um tanganheirão que se ergueu e de nada me valeu...
Eu, caído, e de pescoço torcido.
De pescoço ao lado cheguei a casa calado.
Tocou a rebate na rua do Degredo, assembleia de vizinhas, a ti Mari do Carmo Paposeca, a ti Mari Zé Arrebenta, a Juliôa e a Cafedenha que cozinhavam a lenha.
Folhas de saião, papas de linhaça com ortigas, de chixéfra, unto sem sal que não fazia nem bem nem mal...
Porque não havia álcool e não me doía dente, acabei esfregado a aguardente.
Não passava.
Voltaram-se para o sobrenatural, rezar o torcido.
A caminho da Pedreira, pela mão de minha mãe, depois de passar o Regatinho, na primeira cortada à direita lá estava a extensão sobrenatural de saúde, com a respectiva médica de família de então, a Ti Maria Joaquina Russa.


Entrámos, passado a patinho, fico sentado em cadeira de palha, a minha mãe poisou a cesta de verga com meia dúzia de ovos e uma vassoura de giesta, o preço da consulta, e começa a reza do torcido.


Loira, de apelido russa por ser pobre, olhos esverdeados parecia uma Nossa Senhora de carne e osso, no seu avental de cornucópias drapeadas...
Trás lá a estopa...
Sete nós, sete pai nossos, sete avé Marias ali, de rajada...e eu já de colar na pescoçada...


Dizia...

Mão no peito,
E no bimbigo.
Destorce, destorce,
O que está torcido...

Ámen.

Manuel Peralta

domingo, 5 de junho de 2011

Os Cães que se cruzaram na minha vida...

Claramente um título provocatório para aguçar o apetite de algum distraído navegante que encalhe neste Blog com um nome tão singular.
E que justificadamente poderá interrogar-se: afinal onde estão os Cães e as suas “estórias”? Afinal onde estão os protagonistas que farão juz, ao título deste Blog? Sim, onde estão? E eu nesse particular também não posso prestar grande ajuda. Lembro-me de uma expressão, “ o cão do Guerra”, mas por mais que me esforço, não consigo descortinar o contexto em que a mesma frase era pronunciada.
Talvez “o homem do leme”consiga aclarar esta dúvida.
Vamos porém às “estórias” que tenho para contar, envolvendo alguns dos melhores amigos do Homem.


A primeira, aí vai. Década de 60, Coimbra, e um quarteto alcainense alojado na mesma casa, aonde em determinada altura existiu uma cadela, plebeia, sem pedigree, pouco mais que cachorra, e que acudia ao exótico nome de Muxima. A dita, em determinada altura dava-lhe para roer tudo o que pudesse apanhar. Sapatos, roupas, livros, não estavam a salvo naquela casa.
Na mesma casa, ainda com o 5º ano do Liceu às costas, alojava-se um outro hóspede de nome Zé Oliveira, já na altura um humorista do lápis e da escrita, com créditos firmados. E hoje, até consagrado em meios internacionais do Humor, com abundantes citações na NET. Pois o bom do nosso amigo, com um feitio especial, e a quem o “homem do leme” companheiro de quarto, também de fino humor, conseguia fazer ir aos arames, tinha uma camisa de cor bege, cujos colarinhos, foram um dia o alvo dos caninos da Muxima! Filosófico, o alvejado, referia, “a cadela está visto que gosta é de bolacha baunilha e confundiu o colarinho da minha camisa com essas bolachas”!...
E ríamos a bandeiras despregadas, com a associação daquela camisa às gulodices...
A Muxima dormia no quintal, acimentado. Tinha ladrar fácil aos ruídos da Rua e derrapava nas corridas para assinalar a sua presença. Derrapagens, que aconteciam com uma parede de permeio, por alturas do travesseiro do “homem do leme”. E acordando-o ou não, este foi também uma vítima do comportamento daquela cadela maluca que nunca mais esquecemos...


As “estórias” seguintes com o melhor amigo do Homem, remetem-nos para os 2 anos passados no Norte de Angola, paredes meias com o ex- Congo Belga. Os militares regra geral gostavam bastante de cães. Os soldados, sobretudo os de meios mais rurais, viam neles os animais que tinham ao deixado na sua terra distante e afeiçoavam-se-lhes de igual modo.
Claro que ali, o capim, o clima equatorial, muito calor e humidade, tornavam muito efémera a vida destes animais.
O meu Pelotão de Sapadores não constituía excepção e chegou a ter por sua conta 2 cães. A mim era-me relativamente indiferente tal predilecção, mas que a mesma ajudava a manter o moral dos militares, era inquestionável.
Não me agradava a incorporação destes animais nas colunas e muito menos nas nomadizações, em que muitas vezes o silêncio era a palavra de ordem que os cães poderiam perturbar, agitados até pelo farejar da muita caça existente.
Daquela vez tinha pela frente uma nomadização de 2 dias e 2 noites no Mato, e levar comigo um cão não me agradava. Mas na altura da formação da coluna que nos levou até à zona a patrulhar, alguém ocultou o Sapador, nome que davam a um dos cães, e só chegada a altura de saltar das viaturas, dou pela presença do inesperado “reforço”, que latia entusiasmado junto de quem o ocultara. Fiz-me desentendido, mas todos entenderam que eu não gostara da surpresa. Tínhamos para início daquelas 48 horas, que atravessar uma Mata de razoáveis dimensões chamada de Mossuco, que apenas uma picada nem sempre nas melhores condições atravessava. Com um ou dois pontões de permeio, já por lá improvisara a substituição de uns troncos e era com cuidado, transitável motorizada.


Daquela vez porém eu teria que andar por ali 2 dias e resolvera dispensar a escolta que já retornara a Noqui, para aí a cerca de 20 km, talvez menos.
Organizo o GC em 2 grupos. Faríamos a travessia da Mata apeados, em coluna por um, utilizando o jargão castrense, ou bicha de pirilau, como vulgarmente se dizia.
Os 2 agrupamentos formados, partiriam distanciados cerca de 10 minutos, para mutuamente não se perturbarem na deslocação. No 1º agrupamento, seguiam 2 graduados chefiando 2 secções de 6 militares.
Eu fiquei no 2º grupo, também com uma dezena de homens, incluindo o operador de rádio, com um volumoso Racal às costas, e baterias para 2 dias. Quem só conhece o telemóvel, não faz ideia do que os operadores de telecomunições sofriam, tal qual como os enfermeiros, cuja bolsa de 1ºs socorros, pesaria uma dezena de Kg. A situação era de tal ordem, que em vez da G – 3, a sua arma orgânica seria a pistola Walter. Diga-se de passagem, que mesmo suportando peso suplementar, nunca vi ninguém trocar aquela por esta.
Passados cerca de 10 minutos, avança o meu grupo, em silêncio, e atentos às margens da picada, quando no interior da mata, um resfolegar, seguido de um fogachal, fazia investir na direcção dos militares, um javali de peso razoável, que o Sapador atacara e que veio a morrer aos nossos pés. Refeitos da surpresa, urgia vermo-nos livres dele.


O Racal, no meio da mata não conseguia contactar o quartel para vir uma coluna recolher a preciosa presa. Lá à frente, estaria o 1º grupo, apreensivo pelos tiros que ouvira à sua rectaguarda. Portanto, toca a pegar no javali, revesando-se os homens no seu transporte e à medida que nos aproximamos do fim da picada, um grito de “somos nós” para que não fôssemos surpreendidos por “fogo amigo” .
E não há dúvida, que fomos encontrar os nossos camaradas, alapados ao terreno, e com as armas apontadas para onde tinham ouvido os tiros.
Racal em acção, vem a coluna para recolher o javali, com a ressalva que não se esquecessem da parte que cabia aos caçadores, nem de um osso para o Sapador!
Aqui está como um cão, permitiu melhorar ligeiramente o rancho da companhia por um dia.


A “estória” seguinte, também com um fiel amigo por protagonista, deu-me algum trabalho, e um nocturno e valente susto, aos Pelotões instalados no Morro de Santo Antão, sobranceiro à Vila. As informações e os alertas da DGS, faziam prever o pior. E perante essas circunstâncias, os
Sapadores, eu em particular, porque fui sempre eu a assumir a acção, tive que armadilhar com Minas Anti-Pessoais, um perímetro a menos de uma centena de metros dos 2 Pelotões instalados no topo do Morro referido.
Operação efectuada com cuidados reforçados e sempre com um graduado colado a mim, para ver como ficavam as Armadilhas e o grupo restante disperso para fazer segurança, quanto mais não fosse a alguma peça de caça mais curiosa ou a impedir que algum cão dos pelotões próximos se aproximasse e esticasse os arames, o que seria o diabo! Não estaria decerto aqui a contar esta “estória”.


Minas instaladas, e prontas a ser activadas, embora um Ten. do SGE, me fosse sempre dando conselhos amigáveis, mas que nunca segui,« nosso Alferes, deixe as Minas com as seguranças montadas; nem imagina o trabalho que cai na Secretaria quando morre um Alferes».
Um bela noite 2 enormes estrondos que ecoam pelo vale, e pregaram um valente susto nos pelotões vizinhos das zonas armadilhadas. Acordo, corro para o posto de rádio, confirmam-me terem visto 2 clarões, eu recomendo muita atenção, e que ninguém se atreva a ir ao local.
Logo de manhã, o Com. chama-me para ir ver o que se passara e repor o dispositivo.
Entretanto chega a informação de um dos Pelotões. Um Cão, rafeiro pequeno, que pertencia ao Pel. de Canhões, e costumava montar guarda acompanhando a sentinela, surgira todo esfacelado e a ganir, com sinais de ter sido ele o autor da proeza.
Chego ao local e verifico que o autor teria sido mesmo esse cão. Pequeno,
como as minas estavam a cerca de 20 cm do solo, esticara um dos arames e activara a primeira, fora cuspido para os arames a seguir, estoirara a 2ª, e como a seguir o terreno tinha declive, ao ser cuspido, e como era rasteiro, os estilhaços passaram a rasar-lhe o pêlo.
Aquele Cão superara uma prova pouco menos que impossível! Sobrevivera aquilo que para um ou mais homens, seria uma morte mais que certa! E lá tive que repor com iguais cuidados o dispositivo! Mas a
“estória” deste Cão suicida, nunca mais me esqueceu!


A outra “estória” menos aventureira, mas que envolvem sentimentos e esperteza natural dos cães, encontrei-a descrita e ilustrada, num livro sobre uma Compª que também serviu no Norte de Angola, na Canga, no tal local muito perigoso, e que tinha o mesmo nome do bar, que a dupla Horácio – Kim Ramalho, tiveram na estrada nacional a caminho da Lardosa.

Fonte: ANGOLA – As Brumas do Mato, livro do Alf. Milº Capelão Leal Fernandes e com ilustrações do então Fur. Milº João Chichorro, hoje prestigiado artista plástico. Resumo da “estória” de um Cão chamado Mondego – um cão medalhado. É a “estória” de um cão, dos muitos que existiam nos Quarteis e que um Fur. Milº adoptou e ensinou nas horas vagas de tédio, e que era de uma capacidade de entendimento assombrosa. Aprendeu a dar a mãozinha, a fazer continência, ia nas oper. para o mato, dormia na tenda do amigo, quieto, calado, mas atento. Com
uns óculos que lhe adaptaram para não se ferir no capim, o Mondego, seria um espectáculo! E se por acaso não saía em operação com o amigo, quando este regressava ao Quartel, pulava de alegria, e o seu dono, retirava o cinturão com o cantil e as cartucheiras, pendurava-lho no dorso e dizia-lhe, leva para a caserna, e o Mondego altivo e garboso, cumpria essa missão. Quem se aproximasse, não se livrava de uma rosnadela. Quando o amigo estava de serviço e lhe competia passar ronda aos postos de vigilância, acompanhava-o e foi aprendendo as rotinas. Por vezes, o seu dono ordenava-lhe : Mondego, vai passar ronda. E obediente e compenetrado do seu papel, rosnava se encontrava alguém a dormir mesmo que a fingir. E só depois passava ao posto seguinte. E se houvesse escadas para subir, subia mesmo no cumprimento da sua missão. Está-se mesmo a ver que um cão assim seria a coqueluche dos Fur. Milºs.


Porém, é bem verdade que não há mal que sempre dure, a Canga não era local que se recomendasse aos amigos e a Comissão aproximava-se do fim. E o Mondego, por ali meio perdido, na alegria dos que partiam e nas caras novas que não conhecia, triste, junto a uma das Volvos que transportaria a Compª para Luanda. Um soldado, vendo o animal assim tão triste, diz-lhe Mondego, dá cá a mãozinha, faz agora a continência, e o animal obediente fazia. O motorista de uma das Volvos, vendo aquilo, aproxima-se e diz-lhe, dá cá a mãozinha e o animal embora não o conhecendo, repete aquilo que sabia.
Mas este cão é um espanto! Quem é o dono? Indicam-lho e propõe-se logo ali comprá-lo. Mas o Fur. Milº que se afeiçoara aquele cão, responde-lhe. Não posso vendê-lo. É um cão do Mato. Já cá estava, quando chegámos. Mas vejo, que consigo fica bem. Levamo-lo para Luanda e lá dou-lho. Já é tempo do Mondego acabar a sua comissão no Mato. E já em cima da Volvo, o Fur. Milº diz-lhe: Mondego salta para aqui. E embora a altura da carroçaria fosse superior à dos Unimogs para os quais saltava com facilidade, o Mondego de novo com outro ânimo, salta e aninha-se junto do amigo, a cujo saco fica de guarda. E como se tivesse renascido, aí vem o Mondego a caminho de Luanda.
E Leal Fernandes, evoca cerca de trinta anos depois, as palavras que aliam ironia, sensibilidade e saudade de Chichorro, que lhe diz: o Mondego era um cão medalhado! Bem merecia uma cruz de guerra!
E que conclui – era um cão mas sempre o considerei um bom amigo! Uma espécie de extraterrestre que nos ajudou a passar a vida no Mato e nos deu muita sorte!...

Estas “estórias” dos cães na guerra, não é tão inédita quanto isso. Ainda há poucos dias revi, o inesquecível “O Dia Mais Longo” que ilustra o desembarque das tropas aliadas na Normandia, e lá surge um oficial, creio que escocês, que segura à trela, sob intenso bombardeamento, um cão, este com pedigree, e duma raça cujo nome não conheço. E a grande preocupação do dono, que se mantém de pé, é a de que o animal já de si rasteiro e com focinho de poucos amigos, se baixe, para não ser atingido pelas balas nazis!...

A “estória” derradeira foi por mim testemunhada na Empresa onde trabalhei mais de 20 anos, no Rossio ao Sul do Tejo em Abrantes. Envolve também alguma carga sentimental. Neste caso, era um Cão, rafeiro sem quaisquer atributos no seu perfil genético, que dedicava o seu carinho a uma Pá Carregadora. A Pá Carregadora saía da Fábrica e ia à Estação da CP, descarregar vagões com sementes e carregar camiões, e o Cão não abandonava a dita. Ao fim do dia, a máquina regressava e o Cão regressava com ela.
Numa altura, a máquina esteve em reparação numa oficina no exterior, e enquanto por lá se manteve, durante o dia, o Cão não abandonava a oficina. Cumpria o seu horário ...
Vinha dormir à fábrica, mas logo de manhã, como função que lhe tivesse sido distribuída, aí ia ele a caminho da oficina, onde a sua amada máquina estava em reparação. E isto durou 2 meses! A máquina regressou e o Cão com ela.

E pronto. Quem por aqui navegue distraído, já não pode dizer que não encontrou “estórias” com Cães. Não da terra, mas contadas por alguém da terra deles!...

MC

Do autor, ver:
Textos e fotos em : Panoramio photos by José Castilho
Galeria Noqui

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Na Procura do Dinheiro de JUDAS

Tentar reconstruir uma história acerca do dinheiro que tenha sido objecto de troca na célebre traição de Judas, deveria, como trabalho de investigação, obedecer e respeitar certas características sobre o seu conceito e objectividade.
Em primeiro lugar exigirá o respeito pelo seu argumento histórico, e obviamente, uma comparação sobre as suas fontes, como forma da salvaguardar o melhor possível, tanto a sua fiabilidade, como a credibilidade, de que precisamos para corroborar os factos.


Infelizmente, neste caso, essa análise comparativa não será de todo possível, visto a sua génese, ter como único elemento de documentação, alguns legados evangélicos dos Apóstolos S. Marcos, S. Lucas, S. João e S. Mateus. Tudo o que realmente possuímos e sabemos sobre a traição de Judas, é-nos relatado por esses escritos bíblicos, e por isso também a análise terá de ser cautelosa e consciente, sobre a forma como o sentido místico em interpretações ulteriores, poderá ter tido influência e criado limitações quanto à veracidade dos factos.
Por tudo isto, nesta minha análise interpretativa deste “caso” histórico, pela sua forma intuitiva, torna-se mais empírica que científica.


Terá sido no ano19 dC no reinado do imperador Tibério que Jesus Cristo foi crucificado.
Nesse tempo, a Judeia era então uma província romana, e como tal nela se aplicariam as principais decisões que vinham de Roma. Seria portanto natural que a moeda principal que circulava fosse romana, ou provincial romana, embora se tenha conhecimento de que a algumas outras moedas fosse permitida a sua circulação, como o exemplo das moedas da dinastia de Heródes.


Na generalidade da literatura, argumenta-se que Judas terá recebido pelo préstimo da sua traição, trinta moedas de prata. Neste ponto creio que todos os historiadores convergem.
No meu ponto de vista, e para passar aos factos, pela característica que conhecemos hoje das moedas que então terão circulado, excluo as moedas de ouro como o”áureo”, o ”quinário” em prata, assim como os “sestércios”, “dupôndios” e “asses”, geralmente cunhados em bronze.
Interessante salientar contudo, que no reinado de Tibério, só foram cunhados dois tipos de “denário”(denário do latim denarius) em prata. Não havendo conhecimento de que tenha sido cunhado nenhum outro tipo de moeda em prata, durante o período deste imperador

Tibério, Denário emitido no ano 14 d.C. em Lião (França) 3,78grs.

O primeiro denário, cunhado no ano 14 d.C. em Lião, apresenta no anverso o busto do imperador Tibério com a legenda “TI CAESAR DIVI AVG F AVGVSTVS”. No reverso apresenta Lívia, (sua mãe) ou a Pax, sentada, com um ramo de oliveira na mão esquerda, e um bastão na mão direita, com a legenda “PONTIF MAXIM”. ( Há divergências acerca da figura do reverso).
O segundo, terá sido cunhado no ano 16 d.C., e igualmente em Lião. Também este apresenta no anverso, o busto de Tibério, com a mesma legenda do primeiro. No reverso, apresenta o imperador conduzindo uma quadriga, com a legenda “TR POT XVII IMP VII”. O seu peso era variável, e valeria o equivalente a dez “asses”.
Temos então, que estas moedas circulariam em todo o império, aquando da morte de Jesus Cristo. E, poderíamos concluir, que qualquer destas moedas “denários”teria grandes probabilidades de ter servido de aliciamento no negócio que propuseram a Judas. Mas, porque não inclui-los também misturados com outras moedas, ou simplesmente um outro tipo de moeda em prata?


Alguns elementos substanciais transmitidos no legado dos quatro apóstolos servem para esclarecer algumas dúvidas sobre estas hipóteses.
Hoje, no nosso quotidiano, e na nossa cultura, utilizamos o termo “dinheiro”. Mas, na ligação que se lhe faz, quando se menciona este caso de Judas, a palavra “dinheiro”, terá evoluído, e colado na sua identificação popular, aparecendo o termo tanto na literatura, como no cinema, e em que usado desta forma, se estará a deformar uma realidade histórica.

Denário emitido no ano 16 d.C. em Lião - 3,94grs.

Nas sagradas escrituras, no que pesquisei, não vi mencionada a palavra “dinheiro”. Uma bíblia editada em 1859, que folheei numa biblioteca, foi-me bastante útil.
Dos quatro evangelistas que se referem a este caso, dois deles, S .Marcos e S. Lucas, afirmam que Judas vendeu Jesus, mas sem dar pormenores sobre o montante do negócio.
No evangelho de S. João, faz referência a trinta moedas de prata.
É contudo, S. Mateus que na sua narração, nos poderá esclarecer mais sobre este assunto.


Acusando o seu condiscípulo Judas, por este ter vendido o Mestre pela soma de trinta “siclos”de prata. Teria ele sido colector de impostos para falar desta maneira tão formal, no que se refere a “siclos”de prata?
Não encontrei nada, que me tenha dado indicação de que alguma vez se tenha usado a palavra “siclo” em referência ao assunto que tratamos.
O termo “siclo” é conhecido como uma medida antiga, que equivalia a 6 gramas de prata.
Mas na narrativa de S.Mateus, também poderia ser a moeda de prata utilizada por fenícios e hebreus, que em hebraico era designado por “shekel”.
É pois muito provável que Judas tenha traído, e sido pago com 30 (trinta) “shekels” de prata.
Julgo que naquela época, o único tipo de moeda de 1 (um) shekel em prata que circulou na região tenha sido o “shekel” dito de Jerusalém (como nas moedas de Tiro).


Era uma moeda que pesava mais ou menos 14 a 15 gramas, e circulou em grande quantidade, tendo sido feitas várias cunhagens deste tipo de moeda. Uma delas foi precisamente no ano 33 d.C. O ano da suposta morte de Jesus Cristo? Aqui também existem muitas divergências, embora as datas que aparecem com mais frequência sejam entre os anos 30 e 33 d.C.
O “shekel de Jerusalém” em baixo retratado, apresenta no anverso o rosto do antigo deus Melkart, também conhecido por Baal, virado à direita, e no reverso apresenta uma águia virada à esquerda.

Judeia, Shequel de prata 14,27grs. Cunhado em Jerusalém 12/11 a.C., (provavelmente terá servido de tributo a Judas).
A efígie de Melkart é totalmente diferente do shekel de Tiro.

Atendendo a que o preço de um escravo, naquela época, seria de 180 g de prata, poderemos calcular que Judas no negócio efectuado, teria vendido o Mestre por cerca de 4,250 Kg de prata.
Creio pois, ser o “shekel de Jerusalém” a mais provável moeda que procuramos identificar nesta história, pese embora o risco de decepcionar alguns coleccionadores que já possuam uma, ou as duas variantes do “denário” de Tibério, denominados por “dinheiro de Judas”.
Contudo, estes dois “denários” continuam a ser extremamente interessantes, quem sabe se não terão sido utilizados pelos soldados romanos que guardavam o sepulcro, enquanto jogavam aos dados sobre a túnica de Jesus Cristo, o que lhes confere sempre uma grande história.
O que lamentamos, é que ao longo dos tempos o conceito que nos parece mais plausível para esta história, por motivos menores, se tenha adulterado, e sobreposto ao texto original.
Dizer que Judas entregou Jesus Cristo por 30 dinheiros, sempre é mais cómodo que dizer, Judas entregou Jesus Cristo por 30 shekels.
Afirmar quais as moedas que pagaram a traição de Judas, é tarefa difícil, senão impossível.


Denários da época de Augusto? Dracmas, siclos, ou shekels?
Pouco provável é que tenha recebido denários de Tibério. Isto porque mesmo as cunhagens em grande quantidade, demoravam muito tempo a entrar em circulação, sobretudo nas províncias longínquas do império, como a Judeia onde circulavam muitos tipos de moeda.
Esta questão, levantou-se na Idade Média, e foi proposto ou entendido pelos dirigentes eclesiásticos da época, que a moeda representativa desse facto histórico deveria ser uma moeda que representava Cristo com uma coroa de espinhos. De facto existe um “dracma”de Rodes que representa o deus Hélios ( na mitologia associado ao Sol), com a cabeça adornada com raios, parecendo Jesus Cristo com a coroa de espinhos. Essas moedas, foram na época alvo de uma grande devoção.

Cária - Rodes, Dracma 175-170 a.c.

Manuel Félix Geada Sousa

Bibliografia

Le Douzième Apôtre; Fac- Reflexion n°22, Fevereiro 1993, PP 14-26
(Le cas de Judas et la doctrine de la reprobation)
Centre Numismatique du Palais-V. S. O. Paris 28-06-2002.
http://www.vcoins.com/ancient/calgarycoin/
http://www.anpb.net/index.php?c=14&pg=0&rpp=1
http://www.wildwinds.com/coins/sear5/s1763.html#RIC_0026
http://www.sacra-moneta.com/Monnaies-grecques-antiques/La-drachme-de-Rhodes.html

domingo, 29 de maio de 2011

CARLOS MANUEL BARATA

Partiu prós TOULÕES...

Claro, por este nome e sem foto quem poderia ser?
Refiro-me ao Barrêto, o Carlos, que decidiu com a família fixar-se nos Toulões.
Sabe Sr. Manel tenho lá casa e terra, herdo da minha companheira, Isabel Rolo Martins.

Carlos Manuel Barata / Isabel Rolo Martins

O Carlos Barrêto, com quem convivi de perto e do qual conheço a sua família, era o homem que me cavava o quintal, que raspava a erva e que pastoreava 40 a 50 máquinas de cortar relva na ribeira da Líria.
Com fato e bota de horta, ao lado dele, aprendi a dar a volta à terra, a cavar, a esborralhar, a fazer bredas, a fazer gomas, e, a mondar sem tretas fiz-me quase agricultor de letras...
Cumpria uma função social importante, pois ajudava os caixões a descer à cova nos funerais, a subir pesadas urnas nos jazigos, matava quer carneiros, cabras, ovelhas e borregos.
Fumava de quando em vez um cigarrito... não bebia bebidas alcoólicas.
Como me contava, trabalhava para muitas pessoas de Alcains no arranjo de jardins, espalhando estrume nas hortas, mudava pesadas mobílias nas casas, podava, cavava, plantava...

Máquinas de cortar relva na ribeira da Líria

Com ele, a ribeira da Líria estava bem barbeada, menos abandonada...
Especialista em trabalhos que a generalidade da sociedade rejeita, mas de valor social indiscutível, partiu há tempos com a família, tranquilo, ainda com ilusões, para os Toulões.
Com a partida do Barreto, não há mais quem faça o que se fazia... encostados uns ao Rendimento Social de Inserção, outros ao Rendimento Mínimo Garantido, Alcains fica mais parecido com o País, não lavado, encardido...

Manuel Peralta

quinta-feira, 19 de maio de 2011

O 25 de Abril de 74 em Alcains

Anarquia e polémica.

Passaram entretanto 37 anos. E os tempos que se vivem não são de celebrações nem foguetórios. Sim porque se os cravos há muito murcharam, o FMI, o BCE e a UE, cravaram o derradeiro prego no caixão onde muitos depositaram as suas legítimas esperanças. Há no entanto talvez duas gerações de alcainenses, os que ainda não eram nascidos nessa data e aqueles cuja juventude, não lhes deixava verdadeiramente entender, o que a agitação à sua volta representava, e é para esses sobretudo, que alinhavo especialmente este apontamento.

Vamos porém aos factos. Tinham passado poucos dias sobre o 25/4, e o MDPCDE, que em Castelo Branco aglutinava a oposição tradicional ao regime que caíra, preparava a tomada do poder na Câmara Municipal e tentava alterar o poder nas Juntas de Freguesia do concelho, apadrinhando algumas movimentações locais. Em Alcains, talvez que os rostos mais visíveis dessa mudança, fossem o José Rodrigues Castilho (da loja), e o José Pereira de Jesus. Outros haveria certamente, mas a esta distância, creio que eram os rostos mais visíveis para a protagonização da mudança.


No entanto, surgindo quase do nada e aglutinando com o seu poder de argumentação, entusiasmo e dialéctica, surgia no terreno uma força política, até então quase desconhecida no interior – o Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado, vulgo MRPP, de inspiração maoista, que vem baralhar a estratégia mais conservadora e realista do MDPCDE.

E em Alcains sucedeu mais ou menos isto. É anunciada a convocação dos alcainenses para um plenário a realizar no Largo do Espírito Santo, onde a Associação dos Canteiros era o emblema de uma certa oposição ao regime que caíra há poucos dias, para substituir os membros da Junta de Freguesia.


Em simultâneo para o mesmo dia, e antecedendo o plenário, é convocada a população para uma romagem ao cemitério, à campa do Juíz Conselheiro Dr. Emídio Pires da Cruz, morto em circunstâncias nunca totalmente esclarecidas, mas associadas à polícia política, na altura ainda PIDE e não DGS, com que Marcello Caetano lhe pretendeu lavar a face.


Era uma ensolarada tarde de sábado. O MRPP antecipa-se e dou comigo na varanda da minha casa, na Rua da Liberdade, a ver um cortejo com o seu quê de anárquico, mas vibrante, com cartazes e vivas ao MFA, à Liberdade, à FRELIMO, ao PAIGC e ao MPLA e a mim pessoalmente, regressado há menos de um ano da Guerra Colonial, e sem estar ainda em vigor um cessar fogo, me parecia extemporâneo, e até dorido aos familiares daqueles que em África tinham tombado e aos daqueles que ainda lá estavam.

Esta manifestação, onde a Juventude imperava, foi mesmo ao cemitério, onde terá depositado uma coroa de flores e ouvido um Sanches Roque eufórico com o momento que se vivia. E entretanto em Castelo Branco os membros do MDPCDE, atrasavam-se, à época não havia telemóveis e os MR,s dirigem a manifestação que entretanto engrossara, para o Largo do Rossio, onde da varanda da Associação de Canteiros falariam os diversos oradores.

O MRPP dá a deixa e seguem-se vários oradores, com palavras de ordem então mais objectivas: com o MFA contra o fascismo, contra os patrões, são as palavras que mais se ouvem, gritadas com alma daquela varanda. A excepção, terá sido Sanches Roque, talvez o mais ingénuo dos oradores, que lançando ao ar o chapéu, gritava a plenos pulmões: Liberdade! Liberdade! Liberdade! Viva a Liberdade!


E quanto ao objectivo principal daquele comício/plenário, que seria a substituição dos membros da Junta de Freguesia, nada.

Eis que entretanto chegam afogueados, talvez o Dr Manuel João Vieira, o Carlos Vale, creio que o Fernando Braz, com raízes em Alcains, e uma senhora de que já não retenho o nome, operária fabril e que mais tarde militaria no PCP, mas os MR,s barram-lhes o acesso à varanda.


Surge então o Presidente da Junta em exercício, José dos Reis Dias, o suposto Presidente da Junta a demitir, que da varanda da Associação se dirige aos presentes, frisando que Alcains era uma terra de gente ordeira e civilizada e que os presentes deveriam escutar as palavras que os “Senhores de Castelo Branco” ali estavam para dizer. Estas palavras são vibrantemente saudadas pela multidão, e o MR muda o slogan, passando a ouvir-se, que os problemas de Alcains, teriam que ser resolvidos pelas suas gentes e não escutar lições de ninguém.

Face a isto, e vendo que os desígnios daquela manifestação/comício já não seriam os esperados, as comunicações dos membros do MDPCDE, assumem um carácter mais didáctico, falando das suas experiências pessoais de oposição regime que caíra, da Guerra Colonial e das suas consequências, e do valor inquestionável da Liberdade.


Cantou-se o Hino Nacional e terminou a concentração.

Falhara redondamente a estratégia do MDPCDE e mais, os seus membros só não seriam mais hostilizados, devido às palavras de José dos Reis Dias, pode dizer-se, o grande vencedor daquele anárquico comício.


Mais tarde, sei que a Junta de Freguesia logo após a instalação dos novos Órgão Municipais, terá colocado os seus lugares à disposição, tendo ouvido destes, que deveriam manter-se em funções. E assim seria.

David Infante, correspondente da Reconquista, alinhavou a sua crónica e é claro, que se houvera aspectos daquela anárquica manifestação que nem os presentes tinham entendido muito bem, por maioria de razões os ausentes muitas mais dúvidas teriam.


E no nº da Reconquista seguinte, surge um artigo de opinião, do ex-sacerdote, Dr. João Oliveira Lopes, que manifesta a sua incredulidade perante o que lera. Pura e simplesmente não percebera patavina do que se passara.

Estava dado o tiro de partida para uma polémica na Reconquista, que terá durado seguramente uma meia dúzia de semanas ou mais, em que David Infante e João Oliveira, disseram cobras e lagartos, nem sei mesmo se chegaram a roçar o insulto pessoal.



E isto tudo, porque o Dr João Oliveira, a residir creio que em Coimbra, queria perceber o que se passara e David Infante, em sua opinião, não o relatara. Pudera. Quem seria capaz de colocar em letra de forma, fielmente, um acontecimento com estas nuances!

Em resumo: para mim foi este o facto mais revolucionário e convenhamos anárquico, directamente assacado ao 25 de Abril de 74, vivido em Alcains.


Outros na mesma onda, mas do meu ponto de vista, com menor impacto, sucederiam entretanto e a eles voltarei oportunamente.

MC
Textos e fotos de MC relativos à Guerra Colonial em:
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