Passaram entretanto 37 anos. E os tempos que se vivem não são de celebrações nem foguetórios. Sim porque se os cravos há muito murcharam, o FMI, o BCE e a UE, cravaram o derradeiro prego no caixão onde muitos depositaram as suas legítimas esperanças. Há no entanto talvez duas gerações de alcainenses, os que ainda não eram nascidos nessa data e aqueles cuja juventude, não lhes deixava verdadeiramente entender, o que a agitação à sua volta representava, e é para esses sobretudo, que alinhavo especialmente este apontamento.
Vamos porém aos factos. Tinham passado poucos dias sobre o 25/4, e o MDPCDE, que em Castelo Branco aglutinava a oposição tradicional ao regime que caíra, preparava a tomada do poder na Câmara Municipal e tentava alterar o poder nas Juntas de Freguesia do concelho, apadrinhando algumas movimentações locais. Em Alcains, talvez que os rostos mais visíveis dessa mudança, fossem o José Rodrigues Castilho (da loja), e o José Pereira de Jesus. Outros haveria certamente, mas a esta distância, creio que eram os rostos mais visíveis para a protagonização da mudança.

No entanto, surgindo quase do nada e aglutinando com o seu poder de argumentação, entusiasmo e dialéctica, surgia no terreno uma força política, até então quase desconhecida no interior – o Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado, vulgo MRPP, de inspiração maoista, que vem baralhar a estratégia mais conservadora e realista do MDPCDE.
E em Alcains sucedeu mais ou menos isto. É anunciada a convocação dos alcainenses para um plenário a realizar no Largo do Espírito Santo, onde a Associação dos Canteiros era o emblema de uma certa oposição ao regime que caíra há poucos dias, para substituir os membros da Junta de Freguesia.

Em simultâneo para o mesmo dia, e antecedendo o plenário, é convocada a população para uma romagem ao cemitério, à campa do Juíz Conselheiro Dr. Emídio Pires da Cruz, morto em circunstâncias nunca totalmente esclarecidas, mas associadas à polícia política, na altura ainda PIDE e não DGS, com que Marcello Caetano lhe pretendeu lavar a face.

Era uma ensolarada tarde de sábado. O MRPP antecipa-se e dou comigo na varanda da minha casa, na Rua da Liberdade, a ver um cortejo com o seu quê de anárquico, mas vibrante, com cartazes e vivas ao MFA, à Liberdade, à FRELIMO, ao PAIGC e ao MPLA e a mim pessoalmente, regressado há menos de um ano da Guerra Colonial, e sem estar ainda em vigor um cessar fogo, me parecia extemporâneo, e até dorido aos familiares daqueles que em África tinham tombado e aos daqueles que ainda lá estavam.
Esta manifestação, onde a Juventude imperava, foi mesmo ao cemitério, onde terá depositado uma coroa de flores e ouvido um Sanches Roque eufórico com o momento que se vivia. E entretanto em Castelo Branco os membros do MDPCDE, atrasavam-se, à época não havia telemóveis e os MR,s dirigem a manifestação que entretanto engrossara, para o Largo do Rossio, onde da varanda da Associação de Canteiros falariam os diversos oradores.
O MRPP dá a deixa e seguem-se vários oradores, com palavras de ordem então mais objectivas: com o MFA contra o fascismo, contra os patrões, são as palavras que mais se ouvem, gritadas com alma daquela varanda. A excepção, terá sido Sanches Roque, talvez o mais ingénuo dos oradores, que lançando ao ar o chapéu, gritava a plenos pulmões: Liberdade! Liberdade! Liberdade! Viva a Liberdade!

E quanto ao objectivo principal daquele comício/plenário, que seria a substituição dos membros da Junta de Freguesia, nada.
Eis que entretanto chegam afogueados, talvez o Dr Manuel João Vieira, o Carlos Vale, creio que o Fernando Braz, com raízes em Alcains, e uma senhora de que já não retenho o nome, operária fabril e que mais tarde militaria no PCP, mas os MR,s barram-lhes o acesso à varanda.

Surge então o Presidente da Junta em exercício, José dos Reis Dias, o suposto Presidente da Junta a demitir, que da varanda da Associação se dirige aos presentes, frisando que Alcains era uma terra de gente ordeira e civilizada e que os presentes deveriam escutar as palavras que os “Senhores de Castelo Branco” ali estavam para dizer. Estas palavras são vibrantemente saudadas pela multidão, e o MR muda o slogan, passando a ouvir-se, que os problemas de Alcains, teriam que ser resolvidos pelas suas gentes e não escutar lições de ninguém.
Face a isto, e vendo que os desígnios daquela manifestação/comício já não seriam os esperados, as comunicações dos membros do MDPCDE, assumem um carácter mais didáctico, falando das suas experiências pessoais de oposição regime que caíra, da Guerra Colonial e das suas consequências, e do valor inquestionável da Liberdade.

Cantou-se o Hino Nacional e terminou a concentração.
Falhara redondamente a estratégia do MDPCDE e mais, os seus membros só não seriam mais hostilizados, devido às palavras de José dos Reis Dias, pode dizer-se, o grande vencedor daquele anárquico comício.

Mais tarde, sei que a Junta de Freguesia logo após a instalação dos novos Órgão Municipais, terá colocado os seus lugares à disposição, tendo ouvido destes, que deveriam manter-se em funções. E assim seria.
David Infante, correspondente da Reconquista, alinhavou a sua crónica e é claro, que se houvera aspectos daquela anárquica manifestação que nem os presentes tinham entendido muito bem, por maioria de razões os ausentes muitas mais dúvidas teriam.

E no nº da Reconquista seguinte, surge um artigo de opinião, do ex-sacerdote, Dr. João Oliveira Lopes, que manifesta a sua incredulidade perante o que lera. Pura e simplesmente não percebera patavina do que se passara.
Estava dado o tiro de partida para uma polémica na Reconquista, que terá durado seguramente uma meia dúzia de semanas ou mais, em que David Infante e João Oliveira, disseram cobras e lagartos, nem sei mesmo se chegaram a roçar o insulto pessoal.

E isto tudo, porque o Dr João Oliveira, a residir creio que em Coimbra, queria perceber o que se passara e David Infante, em sua opinião, não o relatara. Pudera. Quem seria capaz de colocar em letra de forma, fielmente, um acontecimento com estas nuances!
Em resumo: para mim foi este o facto mais revolucionário e convenhamos anárquico, directamente assacado ao 25 de Abril de 74, vivido em Alcains.

Outros na mesma onda, mas do meu ponto de vista, com menor impacto, sucederiam entretanto e a eles voltarei oportunamente.
MC
Textos e fotos de MC relativos à Guerra Colonial em:
- Panoramio photos by José Castilho
- Galeria Noqui
Vamos porém aos factos. Tinham passado poucos dias sobre o 25/4, e o MDPCDE, que em Castelo Branco aglutinava a oposição tradicional ao regime que caíra, preparava a tomada do poder na Câmara Municipal e tentava alterar o poder nas Juntas de Freguesia do concelho, apadrinhando algumas movimentações locais. Em Alcains, talvez que os rostos mais visíveis dessa mudança, fossem o José Rodrigues Castilho (da loja), e o José Pereira de Jesus. Outros haveria certamente, mas a esta distância, creio que eram os rostos mais visíveis para a protagonização da mudança.
No entanto, surgindo quase do nada e aglutinando com o seu poder de argumentação, entusiasmo e dialéctica, surgia no terreno uma força política, até então quase desconhecida no interior – o Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado, vulgo MRPP, de inspiração maoista, que vem baralhar a estratégia mais conservadora e realista do MDPCDE.
E em Alcains sucedeu mais ou menos isto. É anunciada a convocação dos alcainenses para um plenário a realizar no Largo do Espírito Santo, onde a Associação dos Canteiros era o emblema de uma certa oposição ao regime que caíra há poucos dias, para substituir os membros da Junta de Freguesia.
Em simultâneo para o mesmo dia, e antecedendo o plenário, é convocada a população para uma romagem ao cemitério, à campa do Juíz Conselheiro Dr. Emídio Pires da Cruz, morto em circunstâncias nunca totalmente esclarecidas, mas associadas à polícia política, na altura ainda PIDE e não DGS, com que Marcello Caetano lhe pretendeu lavar a face.
Era uma ensolarada tarde de sábado. O MRPP antecipa-se e dou comigo na varanda da minha casa, na Rua da Liberdade, a ver um cortejo com o seu quê de anárquico, mas vibrante, com cartazes e vivas ao MFA, à Liberdade, à FRELIMO, ao PAIGC e ao MPLA e a mim pessoalmente, regressado há menos de um ano da Guerra Colonial, e sem estar ainda em vigor um cessar fogo, me parecia extemporâneo, e até dorido aos familiares daqueles que em África tinham tombado e aos daqueles que ainda lá estavam.
Esta manifestação, onde a Juventude imperava, foi mesmo ao cemitério, onde terá depositado uma coroa de flores e ouvido um Sanches Roque eufórico com o momento que se vivia. E entretanto em Castelo Branco os membros do MDPCDE, atrasavam-se, à época não havia telemóveis e os MR,s dirigem a manifestação que entretanto engrossara, para o Largo do Rossio, onde da varanda da Associação de Canteiros falariam os diversos oradores.
O MRPP dá a deixa e seguem-se vários oradores, com palavras de ordem então mais objectivas: com o MFA contra o fascismo, contra os patrões, são as palavras que mais se ouvem, gritadas com alma daquela varanda. A excepção, terá sido Sanches Roque, talvez o mais ingénuo dos oradores, que lançando ao ar o chapéu, gritava a plenos pulmões: Liberdade! Liberdade! Liberdade! Viva a Liberdade!
E quanto ao objectivo principal daquele comício/plenário, que seria a substituição dos membros da Junta de Freguesia, nada.
Eis que entretanto chegam afogueados, talvez o Dr Manuel João Vieira, o Carlos Vale, creio que o Fernando Braz, com raízes em Alcains, e uma senhora de que já não retenho o nome, operária fabril e que mais tarde militaria no PCP, mas os MR,s barram-lhes o acesso à varanda.
Surge então o Presidente da Junta em exercício, José dos Reis Dias, o suposto Presidente da Junta a demitir, que da varanda da Associação se dirige aos presentes, frisando que Alcains era uma terra de gente ordeira e civilizada e que os presentes deveriam escutar as palavras que os “Senhores de Castelo Branco” ali estavam para dizer. Estas palavras são vibrantemente saudadas pela multidão, e o MR muda o slogan, passando a ouvir-se, que os problemas de Alcains, teriam que ser resolvidos pelas suas gentes e não escutar lições de ninguém.
Face a isto, e vendo que os desígnios daquela manifestação/comício já não seriam os esperados, as comunicações dos membros do MDPCDE, assumem um carácter mais didáctico, falando das suas experiências pessoais de oposição regime que caíra, da Guerra Colonial e das suas consequências, e do valor inquestionável da Liberdade.
Cantou-se o Hino Nacional e terminou a concentração.
Falhara redondamente a estratégia do MDPCDE e mais, os seus membros só não seriam mais hostilizados, devido às palavras de José dos Reis Dias, pode dizer-se, o grande vencedor daquele anárquico comício.
Mais tarde, sei que a Junta de Freguesia logo após a instalação dos novos Órgão Municipais, terá colocado os seus lugares à disposição, tendo ouvido destes, que deveriam manter-se em funções. E assim seria.
David Infante, correspondente da Reconquista, alinhavou a sua crónica e é claro, que se houvera aspectos daquela anárquica manifestação que nem os presentes tinham entendido muito bem, por maioria de razões os ausentes muitas mais dúvidas teriam.
E no nº da Reconquista seguinte, surge um artigo de opinião, do ex-sacerdote, Dr. João Oliveira Lopes, que manifesta a sua incredulidade perante o que lera. Pura e simplesmente não percebera patavina do que se passara.
Estava dado o tiro de partida para uma polémica na Reconquista, que terá durado seguramente uma meia dúzia de semanas ou mais, em que David Infante e João Oliveira, disseram cobras e lagartos, nem sei mesmo se chegaram a roçar o insulto pessoal.
E isto tudo, porque o Dr João Oliveira, a residir creio que em Coimbra, queria perceber o que se passara e David Infante, em sua opinião, não o relatara. Pudera. Quem seria capaz de colocar em letra de forma, fielmente, um acontecimento com estas nuances!
Em resumo: para mim foi este o facto mais revolucionário e convenhamos anárquico, directamente assacado ao 25 de Abril de 74, vivido em Alcains.
Outros na mesma onda, mas do meu ponto de vista, com menor impacto, sucederiam entretanto e a eles voltarei oportunamente.
MC
Textos e fotos de MC relativos à Guerra Colonial em:
- Panoramio photos by José Castilho
- Galeria Noqui





