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segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

AMOR À CAMISOLA - GDA - CASA do POVO

Quando observo estas fotos e, por momentos, me detenho, nas caras das pessoas que as compõem, não posso ficar indiferente.
Relembro primeiro os que já partiram… em viagem… para o outro lado da margem!!!


Depois, o inesquecível GDA, Grupo Desportivo de Alcains, de tantos êxitos, feitos, glórias e vitórias.
Os muitos pedreiros, alguns canteiros, carpinteiros, serralheiros, estudantes, empregados de escritório, alfaiates entre outros, que depois de um cansativo dia de trabalho, treinavam, jogavam, organizavam, e, semanalmente, qual lindo postal ilustrado, levavam a sua terra, ALCAINS, a toda Beira Baixa que em jornal se lia, com pundonor e galhardia…
O geral sorriso, o peito para a frente, a uniformidade na pose que só muito trabalho alcança, inspiram confiança.


Esta minha memória sem arestas, a que chamo SAUDADE, é para partilhar através destas fotos, cedidas pelo Manuel Geada, que por sua vez, lhe foram cedidas pelo José da Conceição Churro Barata, vulgo, Zé Motchinho.
Façam aqui o que eu faço, cliquem sobre as fotos, ampliem caras e sejam solidários… façam comentários.
A lição de AMOR À CAMISOLA dado por atletas e dirigentes bem o merece.
Reconhecer o muito que fizeram sem exigir receber, é um dever.

Manuel Peralta

domingo, 9 de janeiro de 2011

Manco, Américo de Oliveira Marques

O Américo Manco


Sapateiro de profissão e figura popular, o Américo deixou-nos uma marca indelével, pela sua modéstia, amizade e pelas muitas anedotas que lhe são atribuídas.


Filho de José Marques e de Maria Joaquina de Oliveira, nasceu em Alcains na Rua do Hospital Velho no dia 17 de Agosto de 1934.

Casa onde nasceu e morou o Américo Manco, Nº7

Terceiro filho de uma família de quatro irmãos,
António, Maria de Lurdes (falecida), Maria José (invisual).
Contaram-me e conheço tantas coisas sobre o Américo, que confesso não saber se tudo é verdade, nem por onde começar.
Segundo o seu vizinho e amigo de infância João Pionto, o Américo teria entre 7 ou 8 anos quando ocorreu o acidente que originou a amputação da sua perna direita, a poucos centímetros abaixo do joellho.
Caminhava o Américo, o João e mais algumas crianças pela Rua da Pedreira acima, atrás de um carro de vacas carregado com pedras, com o ganhão à frente com as rédeas numa mão, e a vara com o aguilhão na outra como era hábito.
Quando o carro chegou ao cimo da barreira, sem o ganhão se aperceber, subiram para o carro.
Talvez com a trepidação, uma das pedras começou a deslizar. O João e os amigos ainda gritaram ao Américo para ter cuidado, mas não deu tempo para nada. O Américo ainda saltou, mas não conseguiu evitar o desastre.

Rua do hospital

A pedra partiu-lhe a perna mas, o ferimento nem parecia ser muito grave.

Como acontecia com muita frequência naquela época, levaram o Américo ao “endireita” e tratavam-lhe a ferida em casa.
Passado algum tempo, a família apercebeu-se que não conseguia curá-lo, levaram-no ao hospital e o diagnóstico tanto temido fez-se ouvir : temos que lhe amputar a perna.
Logo que o Américo se habituou à muleta, começou a brincar ao berlinde, embora tivesse que a pousar no chão. Também conseguia jogar à bilharda e aos botões e quando tocava o clarim p’ró palmanço de maçãs, figos, ‘malacôtos’, etc. acompanhava sempre o grupo: nunca se considerou inferior aos outros.
Conseguia subir algumas paredes e uma vez no cimo, se pudesse saltava ou então descia devagar. Mesmo adulto continuava igual; acompanhava os amigos quando iam aos poços à passarada com a rede, que depois preparavam e comiam no Vaquinha (depois de encerrar a barbearia) e outras mais.
Tinha uma força extraordinária nos braços para se içar.

Quelha da mesma rua

Com alguns anos de diferença na idade, quando penso no Américo, a primeira imagem que me vem à memória, é a de um rapaz que usava óculos com umas lentes muito grossas, alegre, muito falador, que caminhava com o auxílio de uma muleta.
Sempre conheci o Américo a trabalhar como sapateiro.
O ti António e João Rafael (Soares), os irmãos Preto, João, Manuel e António, mais tarde o Mné Vaquinha, eram quem lhes dava mais trabalho.
Como eu brincava muito no Largo de Santo António, por vezes o ti João Preto que morava ali no Largo, chamava pela catchopada para lhe endireitar-mos pregos.
(Eles eram tão pequeninos que só os dedos da canalha os conseguiam endireitar sem bater muito com o martelo nos dedos).
Passáva-mos horas a endireitar pregos para receber-mos um tostão cada um, com o qual compráva-mos três rebuçados. Esta era a única solução que tinhamos para adoçar a boca.
Foi aqui no ti João Preto, enquanto endireitava pregos, que tive conhecimento da devoção ferrenha que o Américo tinha com o Sporting. O Jaime (filho mais novo do ti João) para o enervar, dizia-lhe que o Benfica era o melhor. Que o Sporting era uma merda. Que o José Águas era melhor marcador que o Travasssos. E lá ia a muleta p’ró ar em direcção à cabeça do Jaime.


Mais tarde quando começou a usar a prótese, era a perna de pau que voava.
Os sapateiros usavam uma cadeira baixa, por isso o Américo tinha que tirar a prótese para se sentar e segurar o calçado entre os joelhos, como o faziam todos os sapateiros).

Anedotas ou casos verídicos há dezenas sobre o Américo.

O Zé Saraiva, quando veio de França para dar a tropa, segundo a sua expressão, trouxe uma tchcolatera (carro de segunda mão) ainda em bom estado. Uma noite o Saraiva o Américo e mais uns quantos, vã p’rá festa da Póva. Táva lá a nossa tcharanga a tocar: já tinham dançado várias modas quando a tcharanga começou a tocar uma valsa.
O Américo ao princípio ainda conseguiu acompanhar o ritmo mas, pouco a pouco começou a abrandar. Quando os seus colegas se aperceberam disseram-lhe, acelera Américo.
Mas o nosso dançarino não podia mesmo acelerar, tinha um problema grave que o impedia de valsar.
Então disse à rapariga que o desculpasse mas tinha que parar um momento. Sem se incomodar, arregaçou a perna da calça para apertar algum parafuso ou correia? A rapariga quando viu a perna de pau fugiu, talvez p’ra casa, porque nessa noite não voltaram a vê-la no arraial.

Ruínas da rua do hospital

Era assim o Américo que no tempo do audio, também era um fanático do relato do futebol na venda do ti Domingos.
Ali passava a tarde aos Domingos com a orelha colada ao rádio e mesmo, só a ouvir relatar o Artur Agostinho ou outros, já dizia que o árbito não tinha que assobiar, porque não tinha sido mão ou canto...
No fim dos jogos saíam p’rá praça discutir: conseguia calar a boca a todos os benfiquistas, e dizia, que só não calava a boca ao pai (um benfiquista ferrenho) por respeito.
Se o Américo já era assim a ouvir o rádio, imaginem com a chegada da televisão na varanda do Sr. Raul, mais tarde na sede do GDA, no café do ti António Infante e algumas tabernas.
O ti Domingos da venda dizia que o Américo aos doze ou treze anos de idade, já conhecia a composição de todas as equipas nacionais da primeira divisão.

Galarissa do Outeiro (wc público)

Dizia-se em Alcains, que o Américo tinha mil razões para detestar o pai, que seria culpado da sua dificiência visual, assim como das suas duas irmãs, mas não era o caso: o Américo acarinhava e admirava o pai.
Após o nascimento do primeiro filho, o ti José Marques foi trabalhar para Espanha onde terá sido infectado com a sífilis.
Doença que trasmitiu à esposa, que por sua vez transmitiu aos três últimos filhos e que daria origem à dificiência visual..
Numa consulta que fiz na internet sobre a sífilis, tirei o comentário que se segue em itálico.

(Neste estágio avançado da sífilis pode, posteriormente, afetar órgãos internos como o cérebro , nervos , olhos, coração, vasos sanguíneos , fígado, ossos e articulações. Sinais e sintomas do estágio terciário da sífilis incluem dificuldade de coordenar os movimentos musculares, paralisia, cegueira gradual e demência.)

No início da guerra colonial, o Américo foi durante algum tempo detestado pelas raparigas da nossa terra , que tinham os namorados no ultramar.

Estendal de roupa na rua do hospital

Como a Terra Deles sempre foi terra de ditos, alguém inventou que os rapazes antes de saírem para o ultramar, pediam ao Américo para olhar pelas namoradas. Que até lhe deixavam dinheiro para comprar selos para lhes escrever, caso alguma pisasse o risco. Facto que ele sempre negou.
Ninguém é perfeito: ele teria outros defeitos mas, acusar as raparigas por alguma falha que cometessem, é duvidoso. Além disso, nessa época já o Américo tinha muita dificuldade em ler e escrever.
Quem conheceu o Américo deve recordar-se, que quando ele conversava com alguém, olhava para a pessoa sempre um pouco de lado, porque assim via melhor. Daí a sua dificuldade em ler e escrever.


Quando entrei no café do ti Domingos para pedir algumas informações à Manuela, porque o Américo passava ali muito tempo na venda; também me contou que num dia de inverno à hora de fechar a taberna, “tchôvia água se Dês a dáva” e quando os homens começaram a pegar no guarda-chuva para saírem, alguém se queixou que lhe faltava o seu, ao qual o Américo respondeu. Cada um qdzinrasque! ê já ténhê o mê i vô-me imbora!
No dia seguinte o guarda-chuva apareceu na taberna: soube-se que foi o Américo o autor da façanha. Foi só um empréstimo.
Brincadeiras destas, que não prejudicavam muito, excepto o banho que o homem apanhou, o Américo tem dezenas. Aconteceram-lhe algumas coisas e provocou outras, que quem não o conheceu pensa serem anedotas.

Do Tchico Vaquinha aprendi que na barbearia, do lado que comunicava com a Rua do Saco, no local onde concertavam os sapatos, táva lá o “Cantinho do Américo” .
Era ali que o Américo apostava, que conseguia beber meio quartilho de vinho de cabeça p’ra baixo sem verter uma gota, e conseguia ! Encostava-se ao cantinho com a cabeça p’ra baixo, a perna e meia p’ra cima e, aos poucos, conseguia beber o vinho.
Em dezenas de apostas que o Américo fez, o Tchico só se recorda de o ver aflito três ou quatro vezes. A aposta era sempre o meio quartilho, e uma carcaça que naquela época a ti Piedade vendia a dezoito tostões.


Na barbearia, às escadas p’ra subir p’ró primer andar, tchavam-lhe as escadinhas p’ró céu.
Era por ali que subia o Américo e o Mné Vaquinha, após anunciarem em voz alta para que todos os presentes ouvissem. Mnel vou lá incima bater uma. Ou então: Américo vou lá incima bater uma.
Esta manobra acabou por despertar a curiosidade. Um dia alguém subiu ás socapas e apanhou o Américo a bater uma.
Atenção não é o que você pensa.
O Américo táva a bater uma gemadinha com vinho do Porto.


Durante dois meses e meio que acabo de passar em Alcains, todos os dias procurei uma fotografia do Américo. Interroguei alguns familiares (primos) que nada tinham, indicavam-me esta ou aquela pessoa que talvez tivesse, finalmente não tinham; ou está nas mãos da minha esposa, ela é que procura .
Através da internet consegui o número de telefone do irmão, também não tinha, e disse que podia lá ir a casa, forçar a porta e procurar, que ele não se importava.
Claro que não o fiz.
Já nos últimos dias da minha estadia, alguém me indicou a ti Idalina da Silva Lopes (esposa do ti António Ramalho) porque o Américo também ali passava muito tempo.
Esta Senhora tinha esta fotografia, tirada no alpendre da Santa Apolónia, aquando da primeira festa que fizeram: a dos cinquenta anos.
Quem conheceu o Américo vai ficar surpreendido ao vê-lo na foto sem os óculos: eu também fiquei!
Mas se ele os tirou teve a sua razão, talvez para mostrar aos alcainenses quem era o Américo sem óculos?

Américo, em cima, terceiro da esquerda para a direita
(À direita contra o muro, a bengala do Américo)

Deliberadamente e para exercício de identificação aos amigos do "Terra dos cães", sugiro que cliquem em cima desta foto e identifiquem a rapaziada do tempo do Américo.

É possível que durante os convívios organizados pelo Núcleo Sportiguista, o Américo apareça em alguma fotografia com o cachecol, ou camisola do Sporting.

Camisola que ele tinha por hábito vestir quando o Sporting perdia ; dizia que os amigos eram para as ocasiões; era a sua maneira de apoiar o Sporting (O Américo também lhes chamava lagartos).
Na eventualidade de aparecer alguma foto do Américo, era favor enviar para o blogue terradoscaes, ou contactem o M. Peralta. (“A fotografia depois de digitalizada é devolvida”.)


Graças ao ti António Ramalho e à ti Idalina, o Américo também melhorava um pouco o seu quotidiano.
Com a ajuda de um carro de mão, entregava as garrafas de gás na casa dos clientes.
Ia à loja da ti Marizé Carrega e ao Sr. Benedito Beirão pagar-lhes as letras de crédito, ia ao correio e executava outros pequenos serviços.


Na época das férias e com a chegada dos emigrantes, eram muitos os que queriam pagar um copo ao amigo Américo: este à noite andava quase sempre embriagado e ninguém o conseguia levar a casa. Só o ti António Ramalho ou algum dos filhos conseguiam levá-lo e meter na cama.
Foi também esta Senhora que o convenceu a inscrever-se no lar. Também era a ti Idalina que quando via o Américo a coxear mais que o costume, já sabia que a prótese o tinha magoado, e com alguma dificuldade conseguia que ele a tirasse para lhe curar a ferida.
Quando o Américo precisava de alguma coisa, por vezes já tinha vergonha e não tocava a campainha. Andava por ali na rua até que a ti Idalina ou o ti António o vissem e, perguntassem se necessitava alguma coisa.

Para terminar este pequeno resumo sobre a vida do Américo, aí vai mais uma das suas muitas façanhas.

Já no fim da tarde, num dia que tinha sido bastante chuvoso, táva o Américo com um grupo de rapazes a conversar em frente da venda do ti Domingos, quando apareceu um rapaz desenfreado de bicicleta, que se escondeu na quelhinha da Sra. D. Josefina.
Passado um momento chegaram dois polícias de viação e trânsito de motocicleta, que pararam e perguntaram se não tinham visto alguém de bcicleta, ao qual responde logo o Américo.
A esta hora já tá em casa. Perguntaram-lhe onde morava e disse-lhes (távam de costas viradas p’rós sanitários). "Tã a ver alã aquela rua a 100m ? Viram ali à esquerda, adpôs a primêra à drêta, quêle móra logo ali".
Assim que a polícia arrancou diz o Américo, "fugir rapaziada que daqui apôque eles tã aqui outra vez".
Pudera! Enfiou com eles na quelha do Vale de Bravo. Para quem conheceu, imaginem aquilo num dia de chuva, nos anos 60. Era ali a maior “galariça” (imundice) que existiu na terra deles.
Os polícias regressaram e procuraram, mas já não havia ali ninguém; estavam todos a rir-se por detrás dos vidros das janelas do Clube Recreativo a ver os polícias todos sujos.


Com a morte do Américo no dia dezassete de Fevereiro de 1998, Alcains perdeu mais uma figura emblemática.
Um simples sapateiro, mas um homem muito popular.
O Núcleo Sportinguista de Alcains prestou-lhe uma homenagem bem merecida, cobrindo o seu caixão com a bandeira do Sporting, que ele tanto adorou.

MG e Manuel Peralta

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

BLOG ABERTO - O RENASCER DO FUTEBOL EM ALCAINS

1974 – O renascer do Futebol em Alcains…

Em finais de 1973, o Clube Recreativo Alcainense teve eleições, tendo tomado posse uma direcção que rejuvenesceu a vetusta instituição.
Eu, o Manuel Soares, já falecido, o Félix Rafael,e outros que não recordo, sob a presidência de Mário Tavares, demos início a um processo que deu nova vida à instituição e despertámos os alcainenses que correram a associar-se.
Algures numa noite que situo em Novembro de 1973, em data que ficou associada a uma explosão em Castelo Branco, que aqui foi ouvida, um camião com Maquinaria, explosivos e detonadores para as Minas da Penasqueira, uma carga que era um perigoso coktail explosivo, por alturas de Montalvão, houve movimentação no interior da carga, os detonadores cumpriram a sua missão e explodiram, e com o seu rebentamento, os explosivos, morreram creio que dois homens, foi o diabo! Algumas centenas de metros após, se na Avª então 28 de Maio, poderia ter sido uma tragédia de dimensões imprevisíveis.
Pois essa explosão, coincidiu com uma Noite de Fados e Poesia, no Clube Recreativo Alcainense.
Creio que o fadista foi o Joaquim Boavida, não sei se o Anselmo Sanches cantou, os viola e guitarra, terão sido o Félix Rafael e talvez o João Messias.
No que diz respeito ao Félix, já viram há quantos anos moureja nestas artes!
O momento de Poesia, esteve a cargo do Ezequiel Rafael, com o brilhantismo que se lhe conhecia. Foi um serão bem passado, em volta de caldo verde e chouriço assado.
Pelo Carnaval, houve Bailes, matiné com Cinema para as crianças, enfim a Colectividade rejuvenescia.
E o pano verde, e os jogos de azar, imagem de marca da instituição até aí, deixou de ser o único atractivo para os associados que iam entrando.
Um rallye paper, talvez o primeiro que teve lugar em Alcains, integrado na comemoração do dia da instituição, em resumo o CRA rejuvenescia.
Provavelmente estou a esquecer-me de algumas das actividades que na altura despertaram os alcainenses, sobretudo os mais jovens.
Então e o Futebol, quando surge?
Eu dava então aulas na Escola Técnica de CB, davam-se por lá uns pontapés na bola, e surge a ideia, de um encontro amigável, entre os professores daquela Escola, e uma equipa de associados do CRA.
Equipamentos não havia. Mas o Carlos Minhós, disponibilizou equipamentos do Benfica de Castelo Branco e assim surgiu naquela tarde no Campo de Futebol, com entradas grátis, a equipa de futebol do CRA.
As fotos que se anexam, mostram de verde os professores da Escola Técnica e amigos, e a vermelho o team do CRA.
Não me recordo do resultado, nem isso interessa. O encontro terminou com um saboroso lanche nas instalações do CRA. Estava lançada a semente…
O exercício que se propõe aos navegantes deste Blog, é que ampliem as fotos, se quiserem conhecer os protagonistas que sem ainda o saberem, davam o pontapé de saída, que traria novamente o Futebol a Alcains.
No entanto eu vou identificar os que consigo.

Foto da equipa do CRA – equipada de vermelho

De pé, da esquerda para a direita:
Zé Manuel, Horácio, Zé Luís, André Esteves, Zé Adónis, David, Félix Rafael, Carlos Minhós e Manuel Soares.
À frente, pela mesma ordem:
Manuel Gois, Manuel “Ranhado”, Gilberto, Zé “Miga”, Zé “Pirilau” e João Peralta.

Na foto de conjunto, consigo identificar, de pé da esquerda para a direita:

Zé Manuel “Garrancho”( fiscal de linha), Alírio Serrasqueiro (árbitro) e na extremidade direita, Manuel da Graça(fiscal de linha).
Jogadores: de pé, consigo reconhecer o Manuel Coelho, de barba, e o Zé Carvalho, de bigode, ambos professores de Educ. Física.
À frente, de verde, MC, eu também joguei, entre o Manuel “Ranhado” e o Zé Adónis; e os últimos de verde, creio que são o Fernando Serrasqueiro, hoje Sec. Estado, entre o Manuel Gois e o João Peralta, e entre este e o Zé “Pirilau”, o João Fazenda.

Alguns dos intervenientes nesta memorável organização, numa tarde de sol e muito calor, já partiram.
Vai para eles uma palavra de saudade.

MC

Mais textos e fotos de MC: Panoramio photos by jose castilho
Galeria Noqui

Nota:
Por estes tempos, encontrava-me na guerra colonial, na Guiné-Bissau.

Manuel Peralta

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

MOISÉS DE OLIVEIRA RAFAEL

Estava de “pinsórios”, suspensórios, como agora se diz e já quase não se usam, naquela manhã de 24 de Setembro de 2010, quando este trabalho de campo foi efectuado.
Com que então de pinsórios, Ti Moisés... ataquei!!!
Óh Manel, assim não tenho que apertar o cinto... levei.

Moisés de Oliveira Rafael

Muito lúcido, com memória ainda acordada aos 90 anos, o Ti Moisés nasceu em 25 de Junho de 1921, delfim de mais sete irmãos.
Nasceu órfão de pai, Joaquim Duarte Rafael e a mãe, Damiana da Conceição Barata, tinha o exclusivo do nome, pois foi a única mulher de nome Damiana que existiu em Alcains.
Com os professores José Miguel e Pereira, fez a quarta classe frequentando a escola em três edifícios, Lar Major Rato, casa da Dª Antónia Carrega e edifício da Junta da Freguesia.


Com 11 anos, e em terra de cegos que não viam o trabalho infantil, lá vai o franzino Moisés dar massa, amassada com cal, para a Escola da Pedreira então em construção por volta de 1932.
Não misturava o barro na cal, contrariamente ao que aconteceu no Bôlho, Cantanhede, onde desta mistura se formou o conjunto BarNécal... barro na cal ... de pedreiros e rebocadores... que teve elevado êxito musical, no 132 r/ch.
Mas o Ti Moisés foi grande músico, lá iremos...
Fazia e dava massa nas obras, e com a experiência de massa ali adquirida, foi fazer massa alimentícia, aos 13 anos para a fábrica das massas do Sr. Trigueiros.
Aos 17 anos vai para as tábuas, para a oficina de seu irmão, José de Oliveira Rafael, a aparelhar forro e solho, molduras para tectos, guarnições que embelezavam parcos salões.


Na luta entre ser carpinteiro ou marceneiro, os carpinteiros operavam em tábua grossa, especavam soalhos em casas quando ali se velavam mortos, iam a funerais de chave de fendas no bolso de trás para arrancar a cruz da urna e as respectivas mãozeiras de transporte, faziam as quermesses nas festas com tábuas de solho grosso, 22 milímetros de espessura, e se tivesse 18 milímetros de espessura já era forro, com que forravam “alojes”, quartos e salas defumadas em cozinha com pedra de lareira sem chaminé, com pilheira e palameira…


Depois da tropa, pelos 20 anos, fala com o irmão e decide encetar então a carreira de

- MARCENEIRO -

Guarda loiças, camas, molduras, guarda fatos, aparadores, mesas, de cabeceira umas, de comer outras, cadeiras, bancos, “motchos”, móveis de cozinha, enfim tudo aquilo que fazia parte do dote de noiva casadoira, quer fosse terceira, menina de casa ou costureira.


- ENTALHADOR -

Na oficina do J.Rafael, havia um catálogo por onde os clientes escolhiam as mobílias, que encomendavam para fábricas no norte.
Estas mobílias, oriundas de fábricas ou oficinas mais evoluídas em marcenaria, tinham já uns arabescos em talha, uns recortes em madeira nunca por ali vistos até então.
Ele, Ti Moisés, que tinha deixado as tábuas grossas de forro e solho, repara nas aparas que vinham dentro dos móveis encomendados.
Estes móveis vinham à cor da madeira e, na oficina, pelo Ti Moisés eram pintados à cor pretendida pelo cliente.
Pelas aparas, manda fazer as ferramentas de entalhador, as goivas, macias como noivas, umas abertas, outras ainda fechadas, umas maiores outras mais pequenas, continuo a falar de goivas, e, para não ficar por ali, tinha várias goivas cachóbi...
Na oficina chegou a ter sete colaboradores a aprender e a fazer o que ele fazia, nomeadamente o Alfredo Martinho, (Pacheco), o João Eanes e o irmão Manuel, o Adriano Silvestre da estação, o Emídio Baltazar, entre outros.
Refere que, não faz ideia da quantidade de móveis de todo o tipo que por ali foram feitos.


- DOURADOR -

Nos anos de 1960/1961, vem para Alcains uma equipa de restauradores/douradores, para dourar o altar mor da Igreja Matriz.
Por várias vezes os douradores iam à oficina do J.Rafael, buscar material para o trabalho, nomeadamente à secção de madeira fina chefiada pelo Ti Moisés.
Este, retribuía as visitas no fim do dia de trabalho, observando, perguntando, copiando os truques daquela actividade.


Entretanto, o Ti Moisés, já tinha adquirido o livro “A Arte de Dourar“, da Casa Varela de Lisboa, e tinha as luzes sobre a arte de dourar, todas bem acesas...
Reparava entretanto que, a todas as perguntas que fazia aos douradores sobre o trabalho, respondiam sempre o contrário do que dizia o livro.
Fez-se de parvo, Mné de Sousa como por cá se diz, para aproveitar ao máximo o que via e aprendia.
Ao mesmo tempo e para ir praticando, levou para casa o andor do Mártir S. Sebastião que restaurou, pintou e dourou.
Quando, restaurado, o levou para a sacristia, chamou o chefe da equipa dos douradores o Sr. José Cândido, a quem mostrou o andor.
Este perguntou, quem tinha feito o restauro que estava excelente.
Respondeu o Ti Moisés que tinha sido ele.
Ao que o Sr. Cândido retorquiu… nunca mais voltas a meter o rabo nos nossos trabalhos.
Até hoje.


- COMO DOURAR -

Com a peça de madeira em tosco, bem lixada, aplicar duas a três gessadas, gesso próprio com água, que se aplica com pincel.
Com duas lixas até ficar muito liso, aplica-se uma demão de tinta de óleo, tinta de bisnaga, para dar consistência ao gesso.
Depois de bem seco, aplicar uma demão de verniz mordente. Quando tiver cesão, aplica-se a folha de ouro cortada em almofada de coxim, em pedaços, com trincha própria e cota da mão besuntada com vaselina.
Com a trincha numa mão, apanha a folha de ouro na cota da outra mão, e coloca no sítio a dourar.
Posteriormente, escova com escova macia e, está pronto.
Caso a peça dourada seja para andar de mão em mão, aplica-se um camada de verniz próprio para não sujar o dourado.
Receita do Ti Moisés.


Nesta função, restaurou o altar da capela da Santa Apolónia, o altar da capela do Espírito Santo, três andores da nossa igreja, dezasseis castiçais, pintou o tecto da capela de São Brás, entre outros.
Mas foi no BALDAQUIM, pequeno armário onde se expõe o Santíssimo Sacramento, que o Ti Moisés ganhou a carta de alforria, que o libertou e lhe deu asas para andar pelo tempo e espaço, a renovar caras de Santos e Santas, convivendo com Serafins e Querubins, em universos povoados de estrelas, tornando mais sacras imagens que povoam as fés dos que, por momentos, foram ungidos com tais sacramentos...

- MÚSICO -

Entre 1935 e 1950, Alcains teve a primeira Banda de Música e o primeiro conjunto musical, sem nome, a que chamavam, Jaze.

- BANDA DE MÚSICA -

Da primeira banda, foi seu primeiro mestre, o Sr. José Rafael, pai do Félix Rafael, conhecido pelas suas prestações musicais nos Sultões e em acompanhamentos de viola e guitarra.
O Dr. Ulisses Vaz Pardal, já falecido, estava casado com a menina Quininha, de nome próprio Joaquina, e morava no Solar, hoje Museu do Canteiro, mas no tempo do Ti Moisés conhecido por casa da Dona Joana que era a sogra do Dr. Ulisses.
Foi o Dr. Ulisses, que emprestou o dinheiro para as fardas e instrumentos e sob a regência do mestre a banda lá foi indo… em festas, procissões em todas as ocasiões.
Assim andaram seis anos… anualmente iam a casa do Dr. Ulisses, este tinha um garrafão de um almude de vinho na mesa e ao lado o livro das contas.
Durante estes seis anos, todas as receitas foram para a dívida que entretanto foi saldada.
Mas foi, terá sido, muito tempo... e os músicos, seis anos a dar nota, sem nada receber em troca, desmereceram por nada receberem…
Ficou então o Ti Anselmo como mestre e mais meia dúzia de resistentes e aos poucos …

- JAZZ -

Também é destes tempos o primeiro conjunto musical de Alcains.
Constituído por, Moisés Rafael, flauta transversal, Sebastião Amaro, viola, Joaquim Beirão, viola, José Cassapo, irmão da Piedade tira linhas, violino.
Tocavam em casamentos, bailes, festas, teatros e claro nas festas nas redondezas, Lousa, Escalos de Cima e de Baixo e outras capitais aqui da zona.
Conta o Ti Moisés que foram tocar aos Escalos de Cima ao casamento do José Balbino que casou com uma Escaleira.
Fizeram a comida em caçolas de latão com verdete, e, claro está... diarreia, desde os noivos aos convidados... vieram aos bocados, na carroça do Requeita, deitados, à pistola, pintados...


Claro, também durou pouco, mas o bichinho estava lá...
O Ti Moisés junta agora a sua flauta transversal, ao João Soares, viola, e ao bandolim do António Soares, ambos irmãos, vindos da banda e do teatro.
Este Trio, especializou-se em Serenatas, que eram as dominicais voltas ao povo, fazendo o percurso da procissão.
Partiam frente à igreja e acabavam fosse a que horas fosse, na taberna da Marreca, no Largo do Outeiro.
Atenta ao serviço ao cliente, a Ti Marreca, levantava-se da cama e abria a taberna.


- ARTISTA DE TEATRO -

Silêncio Heróico, João Corta Mar, Filho Pródigo, Culpa dos Pais, entre outros, forma estes os dramas ensaiados pelo Padre João Mendes Pires, que o Ti Moisés, João Soares, António Soares, João Lopes “Senhor”, Lurdes Placa, Branquinhas, filhas do Ti Manel Branco, as três Coxas, Isilda, Adélia, Mariana, representaram quer na JOC, quer na Associação.
Nas Variedades, com canções, duetos, monólogos a que se seguia sempre uma marcha, de partitura comprada na Casa Valentim de Carvalho.
Rezava assim...

A minha terra,
Não sei que magia tem.

Toda a vez que a pronuncio,

Oiço a voz da minha mãe.


Minha terra, minha terra,
Quem me dera lá morar.

Nesses rios cristalinos,

Quem me dera banhar.


Esta foto reproduz o cartaz original de um Grandioso Teatro, feito por um Brioso grupo de Amadores, na Casa da Associação, em 10 de Abril de 1944, para fins de Beneficência.
O drama, Silêncio Heróico, peça em quatro actos, contava a história de um pobre rapaz que presencia um crime dum seu tio e do qual jurou guardar silêncio...
Deus vela por ele, e a descoberta surge por documento salvador... em pleno julgamento é absolvido entre aplausos de amigos, lágrimas de alegria do velho avô, e protestos dos que o haviam caluniado...

Personagens

João Matutino, João Soares
Vicente, seu filho, Domingos M. Barata
Luis, seu neto, João Simões
Padre João, prior, António Soares
Hilário, regedor, António Henriques
Sebastião Antunes, presidente da junta, MOISÉS RAFAEL


2ª Parte

- Variedades -

Dueto Cómico, Os Dois Magalas.
Zé, João Soares.

Tónho, MOISÉS RAFAEL.


Ai o Meu Porquinho, dueto cómico.

Pantaleão, MOISÉS RAFAEL.

Anastácio, João Soares.

3ª Parte


Comédia, Brincadeiras de Carnaval
Uma comédia espectacular em que os espectadores, rebentam de riso…

Dr. Salsaparrilha, José Dias
Cláudio, estudante, Simão Barata
Henrique, António Henriques
Carlos, Domingos Barata

Eduardo, Alexandre Lopes


Ponto, José Rodrigues de Castilho
Caracterizador, José Domingos Galvão de Castelo Branco

A parte musical será executada pelo melhor grupo musical desta terra, sob a direcção do maestro, José dos Santos Rafael.

Preços
Cadeiras, 5$00, dois cêntimos e meio.
1ª plateia, 4$00, dois cêntimos.
2ª plateia, 3$00, um cêntimo e meio.
Geral, 2$00, um cêntimo.

NOTA IMPORTANTE

Em virtude de a HEAA, Hidro Eléctrica do Alto Alentejo desligar a luz eléctrica à uma hora, pedimos ao amável público a subida gentileza de estar na Casa da Associação à hora supra mencionada, para lhe evitarmos a sensaboria de, a meio do espectáculo, ver substituída pelos velhos candeeiros a petróleo, a luz magnífica da electricidade.


Decidi transcrever na íntegra o programa para, no Terra dos Cães, ficar como testemunho de uma época que passou.
Gerações seguintes continuaram este esforço de pioneiros que aqui ficam retratados para a posteridade.
O Ti Moisés, que trabalhou até aos 88 anos, fez muitas coisas na vida… servente a fazer e a dar massa, marceneiro, entalhador, dourador, músico e por fim artista de palco.
Conta-me que, os duetos cómicos eram sempre com ele e com o João Soares, um artista de se tirar o chapéu, e que das mulheres, a Isilda Coxa era uma mulher com muitas capacidades artísticas.
Com a mesma naturalidade com que pinta a cara a um Santo, ria-se, cantando em memória ainda afiada uma quadra do dueto cómico, Dois Magalas que interpretou em 1944.


Tem o homem que marchar,
Tenha ou não vocação.
Se na formatura falar,
Ganha logo a detenção.

Detido fiquei eu, mais que isso, preso com agrado, às muitas memórias do Ti Moisés e às artes que as fotos documentam...
O Ti Moisés, artista de refinada sensibilidade, tem 90 anos de simplicidade.
Recordo-o de calça de ganga azul, perna larga, com duas alças e bolso no peitilho central, sempre maquilhado com o pó da madeira.
Com o Ti Moisés parado, Alcains desce mais um bocado...
Entalhador/dourador, não há mais e não vale a pena dar ais...

Manuel Peralta

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

O SENHOR RAUL

Raul Duarte Prata

Quem ainda não ouviu falar ou não conheceu o Senhor Raul?
Quando os homens, de chapéu na cabeça, em grupos de quatro a oito, faziam o dominical circuito das tabernas, sentado na varanda que a foto abaixo documenta, estava o Sr. Raul.

Varanda da casa do Sr. Raul

Rádio ligado, volume de som elevado, que permitia aos passantes ouvir o relato de futebol, e o terço, foi ali anos mais tarde que surgiu a primeira televisão em Alcains.
O Sr. Raul, nasceu em Alcains, no dia 22 de Dezembro de 1899,e faleceu em 8 de Setembro de 1972.
Filho de Fortunato Duarte Prata e de Claudina Bemposta, casou e teve um filho de nome, Fausto da Silva Prata.

Pai e filho

Homem dotado de vários talentos, comunicativo, foi barbeiro, enfermeiro diplomado,
odontologista.
Com carro próprio, deve-se a ele o surgimento do primeiro táxi de Alcains, exercendo então também a profissão de taxista.
Representante de várias firmas comerciais, viajante, negociou em mercearias, miudezas e
electrodomésticos, ao mesmo tempo que exercia com maestria, a função de caracterizador de personagens, dos muitos teatros que se realizavam na época, em Alcains.
Em Agosto de 1992, no precocemente falecido jornal denominado, ROTEIRO de ALCAINS, o seu director, JOSÉ SANCHES ROQUE, fez ao Sr. Raul, o merecido destaque de imprensa que mão amiga me fez chegar, e que abaixo reproduzo.

Jornal Roteiro de Alcains
Exemplar nº7
Agosto de 1992

Homem dos sete ofícios, autodidata em pirotecnia, foi no entanto na actividade ligada à saúde que o Sr. Raul, ganhou fama e mais se notabilizou.
Quando a Casa do Povo ficava situada na rua do Ribeirinho, rua que vai do Clube da Praça até à rua dos Mortórios, e o médico da Casa do Povo entrava de licença, era o Enfermeiro Raul que assegurava a saúde quer em Consulta Aberta, Urgência ou Emergência.
Por vezes nem tudo corria bem…e, para tal, convido quem me lê, a visitar no TERRA DOS CÃES, um texto que escrevi relativo ao Ti Guilhermino Cuco, seu ao tempo, paciente.

Maria José
Empregada do Sr. Raul

Conta-me entretanto a sua empregada Maria José, solteira, que irá fazer 94 anos em 17 de Janeiro de 2011, natural de Martim Branco, Almaceda , e que veio para Alcains com a mãe quando tinha 11 anos, que certo dia, um filho do Ti Manuel Preto apareceu com o pai no consultório com uma infecção no dente, pedindo ao Sr. Raul para o arrancar... hoje, com anestesia, diz-se, extrair.
Apesar de pedir por tudo, o Sr. Raul não arrancou o dente…vai com o filho para Castelo Branco e lá arrancam o dente ao rapaz…nunca mais teve face ou cara de gente, acabaria por falecer.

Maria José
Ao lado o rádio do Sr. Raul

Ou que fosse pelas muitas amêndoas de farinha, ou pelos rebuçados de um tostão três, que então se comiam, o que é certo é que à mais pequena dor, ia tudo ao Sr. Raul para arrancar dentes.
Pedagogo, dizia... ouve lá, se te doer braço ou perna, também os vais arrancar?
A Maria José, que nunca foi à escola, é a memória ainda viva, das vidas do Sr. Raul... a pedido da irmã dele, a Srª. Fortunata, tinha ela então 20 anos, foi para empregada do Sr. Raul a quem ajudou durante cerca de 30 anos…
Acompanhou a morte do seu filho, que a foto abaixo documenta.

Fausto da Silva Prata

Refere a pobreza das pessoas, pagavam em géneros quer tratamentos quer consultas, mas nunca deixou de atender quem quer que fosse, em face da sua condição social.
Muitas pessoas, vindo do médico de Castelo Branco, passavam depois pelo Sr. Raul, de receita na mão, solicitando segunda opinião.
No quarto dos curativos arrancava os dentes, a ferro frio, sem anestesia, como se dizia…
Raramente havia queixas, e não conheço que me lembre, de alguém que em termos da sua vida profissional, dele dissesse mal.
Em meu entender, Alcains deve lembrar pelas ruas este ilustre Alcainense... pelo que fez, pelas inovações que com o seu esforço antecipou, pela tranquilidade que incutia nas gentes doentes, pelo serviço que com humanidade prestou à nossa Comunidade.
Obrigado Sr. Raul.

Manuel Peralta