...dos diabos não conheço nenhum, mas dos Santos, todos claro, conheço vários Joões... um calceteiro, um canteiro e um empreiteiro que me lembre.
Mas, quem conhecerá João dos Santos, canteiro, se não lhe chamar Moleiro?
Oitenta e nove anos, tantos quanto a esposa, Joaquina Lopes dos Santos, com quatro filhos, um rapaz e três raparigas, vivem ali na Travessa das Pedras do Sal em casa de quintal com atelier ali à mão.
MOLEIRO porquê?
Os seus pais, António Dias Opinião e Maria da Conceição, (Mergulha), eram moleiros e até aos 17 anos o Ti João por ali viveu lado a lado com a Ocrêza, por vezes de águas têsas, com bordalos e barbos no açude que lhe deu saúde...
Portanto, aquilo que foi a profissão dos pais e a dele até aos 17 anos, passou como apelido para ele, e, claro como em leira de terra fértil, houve mais moleiros que vinho mas agora sem moinho...
Naqueles tempos, 1910, 20, até 1960, havia na ribeira da Ocrêza, seis moinhos, dos quais refiro os seus proprietários:
-de António Dias Opinião
-do Cartucho
-do Mergulho
-do Simão Martins
-do Carvalho, e
-do António Albano.
Sobre moinhos, relembro uma das quadras que em pequeno cantava, dirigida à Ti Ana Castilho, casada com o Ti António Opinião e que durante muitos anos viveram no moinho, e, ali com o meu pai e outros amigos, comêmos excelentes migas de peixe. Cantava assim:
Óh ti Ana do moínho,
Do moínho do outeiro.
Vale mais o seu moínho,
Do que vale o mundo inteiro...
Cansado daquela “moadeira”, que lhe moía a vida, e já que condenado estava ao pó, decide então trocar o pó da farinha pelo pó da pedra e lá foi aprender a arte de canteiro. Do moínho do outeiro.
Vale mais o seu moínho,
Do que vale o mundo inteiro...
Andavam então os trabalhos na estrada nacional 18 entre Castelo Branco e Covilhâ, cujo sub empreiteiro era o Sr. João Dias, (Grêlo) que foi seu mestre.
As “primeiras luzes” foram em lancil, depois em vergas, pontões, fontenários até que subindo de categoria e à medida que amadurecia, o seu talento foi desabrochando, suando, andando...
Porque estão por aí, dispersas, relembro algumas das obras mais relevantes do Ti João Moleiro:
-Brazão da praça de Sertã.
-Brazão da praça do Tortozendo.
-Brazão do quartel da Guarda Fiscal de Almeida.
-Brazão da família Resende em Vale de Azares.
-Brazão do Palácio da Justiça da Covilhâ.
-Brazão da Escola Técnica da Covilhã.(Por cima do Palácio da justiça)
-Emblema da cidade da Guarda, que foi oferecido à Nossa Senhora de Fátima, em Fátima.
-Cruzeiro do Bom Jesus em Famalicão da Serra. Este cruzeiro tem braços de dois metros o que dá uma ideia do monumento.
-Em Aldeia do Souto, para o Sr. António Dias Freire, vários fontenários para quinta particular.
Esta é a arte dos canteiros Alcainenses, a que eu chamo “eternamente emigrada”, sem retorno às mãos que as fizeram...(se alguém passar por estes locais e quiser ou puder tirar foto, que a envie para o Terra dos Cães para ser publicada e aqui ficar registada), até que entidade responsável se decida a recolher, classificar, e ordenar para memória futura em museu ainda muito pouco de canteiros...
Passou a Mestre e a ensinar quem queria aprender...o Samarra, o Oliveira, o Zé Martinho, o Esgueira e até o seu filho, José Lopes dos Santos que chegaram a ter a cargo pedreira com cerca de 20 canteiros.
Foram poucos os canteiros de Alcains que não trabalharam para e com o Ti João.
Ia para a Covilhâ tirar medidas e o filho que tomava conta da pedreira ia à noite para Castelo Branco estudar, e claro abandonou as pedras.
Desemborrassava, que palavra de canteiro, linda de Alcainês das Pedras do Sal, os que queriam e não sabiam, mas pouco havia a fazer com os que não sabiam e não queriam trabalhar.
Da sua arca de tesouros, retira colecção que a foto abaixo reproduz, de “arte em pedra” esculpida sem molde, de cabeça e mãos que tantas vezes içaram o fio de prumo, braços cansados do bater da picóla, mão calejadas do cabo de carvalho e do peso da massêta, da bola em pedra com que tantos canteiros honraram o GDA, do machado que não cortava “a raíz ao pensamento” aos pedreiros livres que havia...
E por tal relembro o Padre António Vieira, que viveu no século XVII, natural de Lisboa, e que faleceu com cerca de 90 anos.
Coligida em Sermões e Cartas a obra que nos legou, é marco importante da cultura e da língua portuguesa, e o seu poema O ESTATUÁRIO, retirado do livro, Leituras da quarta classe, enquadra também POESIA EM PEDRA DO TI JOÃO, em obra recentemente por si esculpida.
O ESTATUÁRIO
Arranca o estatuário uma pedra dessas montanhas,
Tosca, bruta, dura, informe.
Tosca, bruta, dura, informe.
E, depois que desbastou o mais grosso,
Toma o maço e o cinzel na mão,
Toma o maço e o cinzel na mão,
E começa a formar um homem.
Primeiro, membro a membro
E depois feição por feição, até à mais miúda.
E depois feição por feição, até à mais miúda.
Ondeia-lhe os cabelos, alisa-lhe a testa,
Rasga-lhe os olhos, afila-lhe o nariz,
Rasga-lhe os olhos, afila-lhe o nariz,
Abre-lhe a boca, avulta-lhe as faces,
Torneia-lhe o pescoço, estende-lhe os braços,
Torneia-lhe o pescoço, estende-lhe os braços,
Espalma-lhe as mãos, divide-lhe os dedos.
Lança-lhe os vestidos,
Lança-lhe os vestidos,
Aqui desprega.
Ali arruga,
Ali arruga,
Acolá recama,
E, fica um homem perfeito,
E, talvez um santo,
Que se pode por no altar.
Padre António Vieira
Padre António Vieira
Durante cerca de mês e meio, quase todos os dias, tive o grato prazer de conviver de perto com o Ti João na elaboração do POEMA EM PEDRA que acima se reproduz.ANJO “NAIF” DE GRAVATA ÀS RISCAS, trabalhado com uma colecção de cinzéis, quais bisturis de cirurgião, quais canetas de escritor em pedra, com riscóte riscado em pedra de granito cortada, por detrás do Infantário da Pedreira.
Relembro o Ti João de boné na cabeça, sentado no seu atelier de ar livre, qual sala de operações, em que cada pancada falsa em pedra pode matar obra sonhada de “homem perfeito, e talvez um anjo que se pode por no altar”...
Foi um prazer ter estado tão perto do Ti João Moleiro.
Manuel Peralta
